Causos do Bairro da Guilda – A Superfície

Nem todas as histórias do Bairro da Guilda acontecem na clandestinidade ou por conta de coisas misteriosas e inexplicáveis ocorrendo em seus túneis. Algumas são bem “pé no chão” e ainda são surpreendentes.

Ah, e ainda assim podem ter um pouquinho de elemento fantástico nelas!

Clube Escudo de São Homobono

Considerado o Country Club da cidade, seus membros originais eram os antigos mercadores da guilda. Aos poucos, eles começaram a vender títulos para outras pessoas endinheiradas de São Cipriano, até restringirem o número total de sócios para mil e quinhentos.

O clube mantêm a fachada de sua última reforma, feita em 1885. E seus espaços, que antes estocavam mercadoria, agora são uma quadra de tênis, outra de basquete, outra de vôlei, uma piscina e salas de convivência diversa – inclusive um fumódromo que, milagrosamente, ainda está ativo mesmo com as leis estaduais anti-fumo!

De vez em quando eles alugam seu salão de baile para festas de formatura. Inclusive, se tudo der certo, estarei lá no início do ano de 2013! Eba!

As histórias sobre o clube poderiam preencher uma revista de fofocas de cem páginas. E é sobre algumas das fofocas que surgiram dentro de suas paredes que iremos falar agora.

A Peeira de São Cipriano

No post sobre as Lendas da Floresta de Ibijuru nós falamos sobre o Luison, o lobisomem guarani. Agora, vamos falar da versão urbana dele.

Em quase todas as culturas do mundo existe uma lenda sobre uma criatura meio humana e meio lobo; e o Brasil não é diferente. Aqui ela tem as suas particularidades: dizem que o sétimo filho homem, ou mulher, de uma família seria amaldiçoado com a licantropia, transformando-se em lobisomem todas as noites de lua cheia. Bem, em São Cipriano houve pelo menos dois casos oficiais de famílias que tiveram filhos do mesmo sexo sete vezes de forma ininterrupta.

A família Romanzeira é bastante famosa na cidade. E em 1898 Emílio Romanzeira casou sua sétima filha mulher, Joana, com Otávio Pécora, um comerciante da região. Foi um casamento ‘apressado’, por assim dizer, com a menina saindo da casa dos pais para se casar com apenas 13 anos – algo que hoje não só seria considerado uma temeridade, mas receberia uma denúncia de pedofilia.

Mesmo nesta tenra idade, Joana Pécora deu à luz a uma criança. Porém, seu marido ficou horrorizado quando descobriu que o bebê havia nascido coberto de pelos, como um animal. O horror do novo papai foi tão intenso que dizem que ele teria tentado afogar a criança na bacia de água quente. As parteiras conseguiram controlá-lo e deixaram a mãe e a criança para descansar a sós no quarto.

No dia seguinte, os familiares encontraram a jovem mãe aos prantos, afirmando que lobos invadiram o seu quarto e levaram a criança com eles. De fato, muitos relataram terem visto sinais de arranhões na garota e pegadas de patas de canídeo no assoalho do quarto. Apesar do evento bizarro, Otávio Pécora não pareceu ficar incomodado, afirmando que não tinha interesse em encontrar o paradeiro da criança e que ele pensaria em ter um novo herdeiro depois.

Após o incidente, Joana começou a desenvolver um comportamento cada vez mais estranho. Comunicava-se com as pessoas com poucas palavras, às vezes com monossílabos ou apenas grunhidos. Ela recusava-se a comer carne assada, preferindo comer a carne mal passada e às vezes até crua. Seu temperamento foi ficando cada vez mais arredio, por vezes até violento. Uma noite, ela teria mordido a mão do marido quando este tentou se aproximar para fazerem sexo, deixando uma ferida profunda.

Otávio decidiu internar a esposa no Sanatório da Piedade e casar-se de novo, alegando que a garota era insana e incapaz de seguir com aquele casamento. Mas tendo os Romãzeira grande prestígio na cidade, eles logo foram resgatar a garota… que havia fugido do hospício antes que seu pai tivesse a chance de chegar até ela. As relações entre Otávio e seu ex-sogro ficaram péssimas e o empresário teve que sair da cidade.

Vale dizer que esta história não é a que foi divulgada nos meios oficiais. O que se sabe é que Joana deu à luz à uma criança prematura, que morreu, e que o desgosto a fez enlouquecer. E depois que ela fugiu do sanatório e nunca mais foi vista.

Porém, os que sabem mais detalhes da história que foi contada no clube dos ricaços, chamam-na de A Peeira de São Cipriano – sendo ‘peeira’ o nome para a versão feminina do lobisomem. E que ela foi viver com seu filhote na floresta, junto com outros lobos.

O Unhudo

A lenda sobre o ‘zumbi brasileiro’, que leva o nome de Corpo Seco, é relativamente famosa no sudeste. Dizem que se trata dos cadáveres das pessoas que foram tão ruins, mas tão ruins em vida que nem o diabo as aceitou. Por isso elas perambulam pela terra, na forma de cadáveres ressequidos, dispostos a fazer mais maldades.

O Unhudo de São Cipriano, no entanto, é um pouco diferente. Trata-se de um dono de terras que nunca acreditou na santidade de Mártir João. Ele veio para a região em 1902 a negócios e ficou porque a terra era farta e, para os padrões de cidades do interior, bastante populosa. Tendo dinheiro, logo comprou um título no Clube Escudo de São Homobono para se enturmar com a elite local.

Ele se recusava a ir às missas ou participar das festividades em honra ao fundador da cidade. Costumava ver com escárnio a adoração à São Cipriano, que ele chamava de falso-santo e demônio. Isto o levou a ter grande inimizade com o povo da cidade e um apelido que ele detestava: Unhudo – pois apesar de querer bancar o ‘chique’ ele quase nunca cortava as unhas das mãos e dos pés, deixando-as grossas, sujas e quase na forma de garras.

O tempo passou e o homem acabou adoecendo e morrendo. Seus familiares pediram para velar o corpo, mas nenhum padre da cidade aceitou fazer o serviço devido a décadas de desrespeito que o Unhudo tinha para com o padroeiro da cidade. Não tiveram outra opção a não ser enterrar o corpo sem missa.

Porém, é dito que no dia seguinte ao enterro, os familiares acabaram discutindo à cerca de um pedido do defunto, de ser enterrado com suas abotoaduras e anéis de ouro. O desejo foi concedido… à principio! Mas como a família estava passando por dificuldades financeiras, poucas semanas depois decidiram desenterrar o sujeito e pegar o metal precioso de volta. E, quando fizeram isso, encontraram o corpo fora de lugar e arranhados profundos de unhas na tampa do caixão.

O que poderia ser simplesmente entendido como um triste caso de catalepsia, e posterior morte por sufocamento dentro do caixão, ganhou contornos sobrenaturais quando muitos juravam ter visto o Unhudo caminhando pela cidade, arranhando portas de igrejas e capelas, desesperado para receber uma missa póstuma depois de ter zombado tanto do santo e do mártir da cidade.

O Incansável Feitor Rubião

O período de escravidão no Brasil – e em todo o mundo – não foi nada bonito.

Desde a época da independência, em 1822, já se falava em abolição da escravatura. Muitos apoiaram Dom Pedro I tendo este objetivo em mente. Porém, as décadas foram passando e nada das leis injustas serem mudadas. Em 1833 a Grã Bretanha, aliada de Portugal, começa a colocar pressão para a abolição; e nada. Em 1865 os Estados Unidos aboliram a escravidão em todo o seu território, e nada do Brasil seguir seu exemplo. A cruel marcha servil prosseguia.

A abolição só ocorreu durante o moribundo processo de destruição da monarquia brasileira, quando a Princesa Isabel fez uma última tentativa desesperada de agradar aos investidores externos do país e obter apoio para permanecer no poder, mas a elite do atraso não se agradou. Com um processo de abolição feito aos trancos e barrancos, ainda levou muito tempo para que estas leis realmente funcionassem na prática. De fato, até meados do século XX não era incomum uma família de posses ‘adotar’ crianças negras e fingir que elas tinham os mesmos direitos que os irmãos brancos, mas eram tratados como serviçais. Pásmem! Ainda no ano de 2000 houve o caso de uma brasileira e seu marido americano que mantinham uma escrava trabalhando para eles em sua casa nos Estados Unidos!

Mas um escravocrata que ficou infame na cidade foi o Feitor Rubião.

Por mais cruel que isso soe, escravos eram ‘mercadorias’ caras e precisavam de condições mínimas de tratamento humano para ‘funcionarem’ com total eficiência. Em São Cipriano os fazendeiros eram conhecidos por tratarem bem os seus escravos, muitas vezes comprando alguns que eram maltratados por outros donos de terras para dar a eles uma vida minimamente digna. E cartas de alforria eram muito comuns de serem assinadas e aprovadas pelo povo daqui.

Acervo do Tribunal de Justiça de São Paulo | Foto: Amanda Rossi/BBC Brasil

Mas havia aqueles que não apenas viam a escravidão como algo moral e natural, como abusavam dela para extravasar seu lado mais perverso. Este era o caso do Feitor Rubião Madeira.

Iniciou carreira como capataz, em meados de 1862, incumbido de capturar escravos fugidos e colocá-los na linha. Trabalhava na Fazenda (posteriormente Chácara) dos Caquis e era conhecido pela sua perversidade. Bastava alguém falar “vou chamar o Rubião!” para qualquer escravo desistir de se rebelar. Porém, mesmo com escravos com bom comportamento, o maldito ainda arrumava um jeito de puni-los.

Os maus-tratos eram tantos que o feitor acabou sendo despedido da fazenda. Mas em São Paulo, naquela época, alguém com sua habilidade era muito requisitado. Ganhou bastante dinheiro com recompensas de caça e voltou para São Cipriano em 1880, época em que todos os escravos no município já haviam recebido sua carta de alforria. Porém, como nada na lei vigente o impedia de ter escravos, ele trouxe alguns consigo e comprou um casarão no bairro da guilda.

Era casado e conhecido por abusar da família e mais ainda dos escravos. Teria se metido em mais de uma briga com habitantes da cidade por conta da violência com que ele tratava as pessoas. É dito que um guarda da cidade o teria impedido de matar uma escrava de quinze anos no meio da rua, ao que ele só gritou: “Ela é minha e eu faço o que quiser com ela!”

Desnecessário dizer que ele criou muitas inimizades. O conselho da cidade já planejava fazer alguma coisa à respeito, quando o sujeito morreu em 28 de fevereiro de 1886, o último domingo do mês. Houve a suspeita de que um de seus filhos, um rapaz que tinha ficado cocho pelas surras do próprio pai, o teria matado sufocado em sua cama. Um processo foi aberto, mas o delegado da cidade fez vista-grossa para o caso feliz da vida!

O tempo passou, os escravos foram libertos logo depois e a família Madeira continuou vivendo na cidade. Hoje, o último descendente já foi embora e o casarão permanece fechado e tombado pela prefeitura, com ninguém querendo morar nele por sentir que lá tem ‘energias ruins’.

E falando em energia ruim, é dito que até hoje o fantasma do feitor Rubião ainda vaga pelo cemitério onde foi enterrado, inconformado com a sua morte e querendo assassinar qualquer um que vê pela frente, embora ele não tenha mais este poder.

Causos do Bairro da Guilda – Os Túneis

Como já vimos neste post, o Bairro da Guilda ganhou este nome porque se tratava de uma região onde produtos de manufatura e fabricação em pequena escala eram criados na cidade (mesmo sendo proibidos pela coroa portuguesa).

Após a chegada da família imperial, em 1822, os comerciantes brasileiros puderam vender seus produtos livremente. As indústrias começaram a surgir e a fazer amplos negócios com a capital do país, Rio de Janeiro; e com a capital da província, São Paulo. Ambas eram ‘megalópoles’ com cerca de dez mil habitantes naquela época, tendo assim uma incrível demanda para produtos de todos os tipos.

Rotas de comercio começaram a se estabelecer, mas antes delas havia outras rotas secretas, longe dos vorazes olhos imperiais. Em 1805 começou a construção da ampla rede de túneis que liga várias propriedades desta parte da cidade, que citamos brevemente no post original. E agora vamos nos aprofundar (literalmente!) sobre eles.

O Homem de Metal

Siderúrgicas só começaram a surgir oficialmente no Brasil após a chegada da família imperial portuguesa. Embora tenha havido uma vã tentativa em Minas Gerais, que não deu muito certo, em 1814. Mas dois anos antes, uma poderosa caldeira estava em funcionamento na área que hoje ´´e o Estádio São Cipriano – casa do nosso time, São Cipriano Futebol Clube (em eterna segunda divisão).

Fabricando metal para usos diversos, esta pequena siderúrgica funcionava de forma sazonal, uma ou duas vezes por mês para não dar muito na vista com a sua fumaça – sem falar que os próprios moradores da cidade reclamavam da fuligem. E foi de lá que muitos instrumentos de metal de boa qualidade começaram a ser fabricados e vendidos por toda a região.

Em 1831 a siderúrgica enfim conseguiu sair da clandestinidade e foi oficializada como Fábrica de Ferro Líquido Romãzeira, liderada pelo seu dono Matheus Boa Morte. Ela funcionou por mais duas décadas, até que um acidente grave aconteceu.

Um crisol cheio de ferro fundido acabou caindo sobre cinco funcionários, ferindo gravemente dois deles e matando os outros três após alguns segundos de extrema agonia. Os feridos foram socorridos, mas um não resistiu às gravíssimas queimaduras e o outro perdeu um braço e uma perna. Um dos falecidos teve seu corpo carbonizado até os ossos, sendo que a única coisa que restou para a família enterrar foram restos de metal quebradiço.

Em uma cidade tão pequena, aquele evento caiu como uma bomba. Os moradores já não gostavam da poluição que a siderúrgica causava e se juntaram para boicotar e fechar o lugar. Matheus já era um homem velho naquela época e cinco dos seus seis filhos já tinham deixado a cidade, sem se importar muito com os assuntos da fábrica. Sem muita resistência, ele aceitou o fechamento e doou a propriedade para a cidade.

Porém as histórias sobre o Homem de Metal que caminha pelos túneis e pelos corredores vazios do Estádio São Cipriano são contadas até os dias de hoje. Aos gritos de dor, ele assusta as pessoas que tentam se aventurar nesta região à noite e até mesmo faz com que adolescentes inconsequentes que tentem entrar nos túneis restantes dali desapareçam.

Esse fantasma metálico também é considerado o motivo pelo qual o time da casa é amaldiçoado com eterna performance ruim nos jogos do campeonato paulista.

A Freira Jornalista

Quando veio a liberação da imprensa, (sob supervisão régia de Portugal em 1808) o primeiro jornal do país foi criado: a Gazeta do Rio de Janeiro. Mas antes disso duas pequenas prensas manuais já funcionavam tanto no Monastério quanto no Convento do Mártir João de São Cipriano. As cópias dos livros, mantidos escondidos dentro destas instituições, encontraram nos túneis e salas secretas da guilda um lugar extra para manter seus escritos em segurança.

Em 1821, com a censura prévia mais afrouxada, o primeiro jornal da cidade de São Cipriano foi oficializado – e quem o escrevia era uma freira.

Irmã Donizete ‘Gazeta’, como ficou conhecida, era a responsável por escrever quase em sua totalidade o jornal de quatro páginas Gazeta de São Cipriano. Considerada por muitos como uma mulher muito educada e bem letrada (tinha secretamente concluído um curso superior de literatura) ela tomou para si a missão de escrever um jornal de periodicidade bissemanal na cidade.

À primeira vista seu conteúdo parecia bastante banal. Lançado às terças e sábados, dividia-se da seguinte maneira: primeira página reunia os acontecimentos da cidade; segunda página eram notas diversas sobre coisas ocorrendo em São Paulo e Rio de Janeiro; terceira página dedicada a nascimentos, obituários, eventos da igreja e anúncios do comércio local; última página, panegíricos, orações e um pequeno editorial mais reservado a conselhos de moral cristã do que qualquer outra coisa.

Porém, em alguns destes editoriais, era possível ver um pouco das ideias ‘liberais’ da freira no que diziam respeito aos costumes da época. Pequenas entrelinhas incentivando garotas a estudarem, não dependerem apenas do marido e, sobretudo, para o povo começar a pensar em escolher seu próprio governante. É dito que estes pensamentos não divergiam muito do que o próprio povo da cidade pensava. Mas o problema começou quando cópias da Gazeta de São Cipriano começaram a ser distribuídos fora da cidade.

Em fevereiro de 1845 um homem de fora da cidade apareceu perguntando sobre o dono do jornal. Ficou perplexo quando todos confirmaram que era uma freira, e não apenas um pseudônimo de algum bacharel metido. Pediu mais algumas informações e foi embora, deixando um clima tenso no ar.

No mês seguinte, março de 1845, o homem voltou acompanhado de dois colegas do exército imperial brasileiro. Eles invadiram a pequena casa editorial do jornal e atiraram em irmã Donizete e outros três trabalhadores que estavam imprimindo outra leva da gazeta. A freira conseguiu evitar de ser morta no lugar, escapando por um dos túneis subterrâneos.

Nesse meio tempo o povo da cidade – incluindo o célebre Capitão Antenor Gomes Martins, também do exército imperial brasileiro – apareceram para render os assassinos. O invasor, descontrolado, disse que estava fazendo justiça, pois os escritos da freira estavam “destruindo a vida de moças puras, pervertendo suas cabeças e entregando-as ao demônio”. Aparentemente, uma das filhas deste militar acabou se rebelando contra o pai graças aos incentivos dos editoriais da gazeta que chegou em suas mãos.

O assassino foi abatido no local pelo seu colega de farda e seus comparsas foram presos. Logo depois, uma equipe de busca tentou encontrar irmã Donizete nos túneis, mas ela já havia falecido pela hemorragia. Mas antes de morrer, deixou algo escrito com seu próprio sangue em uma folha de papel que carregou consigo – e que teria se tornado uma página do jornal se tivesse sido impressa. É dito que este papel está guardado no monastério com muitas honras.

Ela e os três desafortunados ajudantes foram enterrados com louvores e o Gazeta de São Cipriano dedicou várias edições em homenagem à irmã Donizette ‘Gazeta’ – sua imagem se tornou o símbolo do periódico. Porém, nunca mais o jornal teve o mesmo charme de antes e acabou sendo descontinuado em 1860, sendo substituído pelo, até hoje publicado, Jornal de São Cipriano.

Quanto à irmã Donizete, é dito que ela ainda se encontra nos túneis. E se alguém precisar de algum conselho para a vida, basta ir lá embaixo (já que o antigo prédio da gazeta foi derrubado) e escrever uma mensagem para ela em um pedaço de papel. Você pode receber uma resposta no dia seguinte, no verso, escrito em vermelho.

O Portal de Tenochtitlán

Nossos hermanos mexicanos tiveram que enfrentar seus próprios problemas com colonizadores durante séculos, até o seu povo originário, os astecas, ser quase completamente dizimado. A capital de seu império era chamada Tenochtitlán e encontrava-se onde hoje é a Cidade do México. Sem me aprofundar demais nos mitos e histórias deles, vamos à parte que interessa à cidade de São Cipriano.

Por volta de 1887, nossa cidade começou a passar por uma reforma em seu saneamento básico, com grandes ‘cloacas’ sendo criadas para escoar o esgoto e levar água potável para as casas. Nesta época, uma companhia de saneamento regional chamada Águas de São Cipriano começou a escavar a terra. E, obviamente, encontraram alguns dos túneis abaixo do bairro da guilda.

Houve discussões sobre usar alguns destes túneis como cloacas, já que alguns acreditavam que eles eram patrimônios históricos e símbolos de luta do povo da cidade durante sua época como colônia. Outros simplesmente discutiam as questões logísticas de que estes túneis não foram direcionados para os locais certos da onde a água deveria escoar.

Por fim, chegaram à conclusão que uma série de túneis menores – onde era necessário um adulto andar agachado para passar – poderiam servir à causa da saúde pública, enquanto os túneis maiores e mais bem preservados se manteriam intactos.

Os trabalhadores começaram a adentrar nestes túneis menores para ver o quão longos eram, até notarem que um deles parava de forma abrupta no que parecia ser uma parede maciça de rocha vulcânica. O que não parecia fazer o menor sentido em existir ali, pois o Brasil não possui vulcões.

O chefe da empresa não entendia muito à respeito da natureza de rochas e minérios e apenas ordenou que a rocha fosse escavada, já que ela seguia na direção correta para o escoamento da água. E foi o que os trabalhadores começaram a fazer… até que um deles desapareceu sem deixar vestígios.

E o mais estranho de tudo é que o trabalho de escavação daquela rocha vulcânica parecia ter retrocedido, como se o mineral tivesse se ‘recuperado’ dos danos causados.

Mais escavações foram feitas e outros dois trabalhadores desapareceram misteriosamente. As famílias entraram em pânico e boatos começaram a se espalhar. Chegou num ponto que o próprio convento de Mártir João teve que intervir para que aquela obra fosse parada. Pelo menos naquele túnel em específico, cuja rocha vulcânica sempre parecia se restaurar dias depois de ser quebrada.

O tempo passou e, em 1893, um dos trabalhadores desaparecidos voltou para casa. E ele contava a mais absurda das histórias!

Segundo ele, enquanto trabalhava na escavação daquele túnel, o homem foi transportado para a Cidade do México. Mais especificamente para Tenochtitlán, a antiga capital dos astecas. Ele teria visto com seus próprios olhos vários momentos históricos, desde a ascensão da cidade até sua destruição dos espanhóis.

Por fim, após testemunhar tudo aquilo, ele teria acordado em choque nas ruas da Cidade do México poucos dias após o seu desaparecimento no Brasil. Foi mantido em um sanatório de doentes mentais por anos até ser liberado e conseguir, através da piedade de algumas pessoas, os meios para voltar ao seu pais.

Desde então, aquela parte específica dos túneis abaixo do bairro da guilda foram selados e nunca mais puderam ser acessados. Mas há quem diga que os antigos mapas que mostram o local ainda podem ser encontrados em algum lugar.

Quem foi São Cipriano

Olá, pessoal! Em primeiro lugar, muito obrigado a todos que estão me auxiliando na pesquisa da minha monografia!

Eu já recebi os primeiros Formulários de Não-Moradores da cidade e as respostas de alguns me deixaram surpresa. A maioria não sabe quem foi São Cipriano – no máximo, conhece ele do tal ‘Livro de São Cipriano’ que ficou famoso nos anos 90 entre a galerinha trevosa das escolas.

Quem mora aqui geralmente já toma esse conhecimento como certo, então achei que seria importante fazer um post sobre ele.

Antes de mais nada, é preciso saber que existem DOIS São Ciprianos. Um deles é São Cipriano de Catargo. Conhecido como grande orador e nomeado bispo de Catargo, foi levado à julgamento por Roma e condenado à morte. Mas não é sobre ele que iremos falar aqui, mas sim sobre São Cipriano da Antioquia – esta figura tão controversa que é o padroeiro de nossa cidade.

São Cipriano nasceu por volta do ano 250 na Antioquia. Nesta época, o cristianismo ainda não era muito difundido e ele cresceu pelos ditames da civilização fenícia que controlava a região. Seus pais teriam sido muito ricos, o que permitiu que ele estudasse magia e tivesse recursos para viajar para aperfeiçoar seus conhecimentos e poderes.

Por volta de 280 ele teria chegado na Babilônia e conhecido uma jovem donzela rica chamada Justina. Ela foi criada numa família semita de caldeus, mas converteu-se ao cristianismo. Disposta a preservar sua virgindade, recusou o casamento com um homem chamado Áglede; e este, inconformado, pediu ajuda de Cipriano para enfeitiçar a jovem.

Mesmo sendo um bruxo poderoso, capaz de conjurar sortilégios e invocar demônios, Justina conseguiu se defender com sua fé e orações. Desiludido e reconhecendo o poder de Deus como superior ao da sua magia, Cipriano converteu-se e queimou todos os seus livros de bruxaria, além de doar toda a sua fortuna aos pobres.

No ano de 304, quem reinava em Roma era o imperador Dioclesiano. Ele teria ordenado que todos os convertidos – incluindo Justina e Cipriano – fossem capturados e torturados para renegar a fé cristã. Eles foram trazidos até a Nicomédia, onde sofreram com açoites e até mergulhados em um caldeirão de óleo fervente, mas não cederam. Um feiticeiro chamado Atanásio, antigo discípulo de Cipriano, comentou com os interrogadores romanos que as torturas não surtiam efeito porque o seu antigo mestre usava feitiçaria para proteger a si mesmo e Justina.

Querendo se provar maior que seu antigo professor, Atanásio conjurou feitiços e jogou-se no caldeirão fervendo. Mas acabou morrendo queimado, ao contrário de Cipriano e Justina, que permaneciam vivos.

Por fim, os dois cristãos foram condenados à morte e decapitados às margens do rio Galo, junto com outro mártir chamado Teotiso. Seus corpos foram expostos ao público como aviso, até que um grupo de cristãos os recolheu e os levou para Roma, sob os cuidados de uma senhora chamada Rufina. Quando o imperador Constantino subiu ao poder, os restos mortais dos mártires foram enterrados na Basílica de São João de Latrão.

Dito isso… o que a igreja católica pensa a respeito deste santo?

Identidade Dupla? Lenda? Farsa?

Histórias tão antigas sempre erguem as sobrancelhas de muitos, sobretudo daqueles que tentam estudar a história dos primeiros cristãos.

Como já comentei sobre o bispo de Catargo, que tinha o mesmo nome do santo padroeiro de nossa cidade, muitos acreditam que pode ser o caso dos dois serem a mesma pessoa. Talvez essa história mais ‘proibida’, sobre seu passado como feiticeiro, tenha sido algo que a igreja católica tentou desvencilhar de um de seus primeiros bispos e acabou criando um ‘segundo’ Cipriano para receber esta fama.

Alguns dizem que ele sequer existiu. Que é apenas uma lenda bonitinha para mostrar que ‘até os bruxos podem se converter’ ou algo do tipo. Uma constatação surpreendente, vinda de uma instituição que leva quase qualquer registro oral como prova de seus mártires e santos.

Hoje, a posição da igreja católica sobre este santo é discreta, para dizer o mínimo. Pouco se fala sobre ele e seu passado (como uma família levemente homofóbica que não rejeita o seu parente gay, mas prefere que ele não se assuma na frente de todo mundo). Quase como se ele fosse um ‘São Longuinho’ da vida: uma anedota que não se leva a sério, mas também não se nega que pode ter um fundo de verdade.

Seja como for, o mártir João que fundou a cidade em seu nome levava a existência dele bem a sério. O suficiente para irritar a igreja e ser condenado à (hoje não-oficial) primeira e única execução pela Santa Inquisição no Brasil.

O Livro de São Cipriano

Também conhecido como ‘Capa Preta’ ou ‘Tesouro do Feiticeiro’, o livro de São Cipriano é razoavelmente notório aqui no Brasil e em outros países católicos. Mas sobre a veracidade dele… bem, vamos começar pelo elefante na sala: São Cipriano não teria queimado todos os seus escritos de bruxaria quando foi convertido?

Alguns defendem que talvez não tenham sido seus sortilégios que foram queimados quando ele se converteu e que ele os escondeu bem guardados. Alguns dizem que, mesmo queimando seus feitiços, isso não quer dizer que ele se esqueceu deles – e poderia tê-los reescritos rapidamente durante seu tempo de prisão, antes de ser martirizado.

Mas a verdade é que esse livro que circula por aí certamente não foi escrito por ele.

Segundo meu primo mais velho e ex-gótico, o livro que andava de mão em mão pela galera nas escolas nos anos 80 e 90 era um compilado de fórmulas e simpatias bobas registrada por autores anônimos diversos. Algumas que até a minha avó seguia e, no geral, eram bem inofensivas – contanto que ninguém inventasse de fazer ‘poção do amor’ pra por no copo de ninguém na escola; não porque funcionava, mas porque o alvo poderia ficar doente e o ‘bruxo’ ia tomar uma suspensão!

Eu espero que este post tenha explicado pelo menos o básico sobre a história deste santo. E por favor, continuem me mandando os formulários! Está sendo bem legal ver a visão da galera de fora sobre a nossa cidade.

A História do Bairro da Guilda

Na era medieval, as guildas de mercadores começaram a surgir para restaurar o comércio na Europa após a queda das grandes rotas comerciais que foram destruídas com as constantes guerras e cruzadas que chacoalharam a região entre a antiguidade e a idade média.

Tratava-se de instituições que ensinavam, protegiam, organizavam e defendiam os interesses dos trabalhadores da época, como sapateiros, ferreiros, oleiros, alfaiates, etc. Em uma era onde indústrias ainda não existiam, estes eram os grupos mais coesos e que reuniam a maior quantidade de profissionais que trabalhavam em um tipo específico de ofício. Por este motivo, algumas guildas costumavam ser bem poderosas. Principalmente dentro dos burgos.

No Brasil, devido à sua origem como colônia, o desenvolvimento de qualquer tipo de ofício que não fosse o puro extrativismo para envio de matéria-prima para a capital era visto como subversivo e passível de punição pela coroa portuguesa. Porém, em São Cipriano, havia uma pequena guilda conhecida como Escudo de São Homobono, disfarçada como uma simples congregação religiosa que comungava pelo santo padroeiro dos comerciantes. E esta surgiu em 1801.

A ideia da guilda partiu de Mateus Boa Morte, descendente de uma das famílias quatrocentonas paulistanas que chegou em São Cipriano aos 19 anos, em 1798. Desencantando com os rumos do país, sobretudo com a eterna imobilidade intelectual forçada devido às restrições de Portugal, o rapaz decidiu ir para o então estado de “Goyaz” para tentar construir seu próprio nome – cujo sobrenome original ele já havia abandonado, baseado numa última conversa que teve com seu pai: “Que você, ao menos, tenha uma boa morte!” ele teria lhe dito. No meio do caminho, ele encontrou a cidade de São Cipriano.

Vendo o clima mais permissivo da região, que havia aprendido com anos de prática a evadir-se dos olhares perigosos da coroa portuguesa, ele começou a financiar os comerciantes locais. Aproveitando o contrabando de livros pela universidade secreta do local, ele auxiliou a entrada de antigos tomos que ensinavam sobre os ofícios – que já não eram tão secretos assim, uma vez que a Europa já estava abandonando o esquema de guilda de mercadores.

Escudo de São Homobono

O disfarce de instituição religiosa foi convincente o suficiente e assim os trabalhos da guilda se iniciaram oficialmente em 1801.

Junto com a confecção de alguns poucos produtos de vestuário feitos sob encomenda, pequenas máquinas têxtis começavam a trabalhar nos porões das casas. Estes produtos eram vendidos e transportados de forma secreta para outras cidades, longe dos olhares da coroa portuguesa e seus impostos sob a colônia. Sem falar em grandes caldeiras que começaram a ser construídas para a manufatura de grande quantidade de utensílios de metal – e cuja fumaça era disfarçada por simples queimadas.

Os mascates que permitiam este transporte discreto destes produtos eram os freis do Convento do Mártir João de São Cipriano. Viajando por todo o país pregando a fé cristã, eles eram acompanhados por um mercador – disfarçado como um simples condutor de charrete – que fazia os negócios nas cidades próximas, vendendo produtos de qualidade diferenciada. isso também ajudava a evitar os salteadores de estrada, pois estes pensavam duas vezes antes de atacar um grupo de freis – sobretudo porque acreditavam que eles não carregavam nada de valor.

Várias destas carroças, portando o símbolo de São Homobono, começaram a sair por aí. E caso alguém ligado às autoridades começasse a questionar estas linhas de comércio clandestinas, os freis eram muito bem treinados na lábia para dispensar a maioria dos guardas; em penúltimo caso, ofereciam suborno, em último… bem, vamos falar disso em outro post!

De Guilda para Clube

Quando a coroa portuguesa teve que sair fugida de Portugal, obrigando-se a afrouxar seus duros mandatos sob a liberdade comercial e educacional no Brasil, os comerciantes de São Cipriano não precisaram mais ficar escondidos. E assim as duas primeiras fábricas da cidade, a Companhia Têxtil São Homobono e a Fábrica de Ferro Líquido Romãzeira, puderam ser oficializadas em 1829 e 1831 respectivamente – esta última, propriedade de Mateus Boa Morte e sua esposa, Inês Romãzeira Boa Morte.

Com o tempo, as capitais estaduais começaram a voltar a ganhar o protagonismo financeiro através de incentivos diversos. Mesmo assim, foi tempo suficiente para que a cidade de São Cipriano pudesse garantir um bom dinheiro em caixa para estruturar sua zona urbana e reformar suas igrejas, convento e mosteiro.

No início do século XX, a guilda não tinha mais necessidade de existir e mudou de nome para Clube Escudo de São Homobono, destinado às famílias dos membros originais da guilda. Hoje, o clube é um pouco mais acessível, mas o título de sócio lá ainda é meio caro (a mãe de um colega meu da faculdade me ofereceu o dela por 10 mil reais, oxi!).

Mas até agora não falamos do bairro em si, não é?

O ‘Queijo Suíço’ da Cidade

Pela sua natureza secreta, a guilda não tinha um local fixo; com exceção do antigo prédio do Escudo de São Homobono que era apenas um chamariz.

Cada uma das casas do entorno era um pedaço da guilda, com suas máquinas e mercadorias secretas em seus porões. E para que os donos destas casas pudessem transitar com certa tranquilidade, sobretudo quando membros da guarda real começavam a fazer viagens pelas cidades, vistoriando as coisas, eles construíram sistemas de túneis.

A escavação começou por volta de 1805, sendo o primeiro pedaço um corredor baixo e estreito que unia a casa de Matheus Boa Morte à da família Romãzeira, distante cerca de sessenta metros. A origem do túnel, inicialmente, não foi por motivos comerciais, mas sim porque Inês e Matheus já estavam apaixonados e a família queria que a filha seguisse o caminho do monastério. Porém, percebendo que os túneis poderiam ser úteis para abrigar pessoas e mercadorias – e vendo que não teriam como separar os ‘pombinhos’ – a própria família Romãzeira começou a incentivar a expansão destes túneis para as casas de outros colegas comerciantes.

Aos poucos, a região começou a ganhar vários destes túneis, ao ponto que alguns problemas de infraestrutura começaram. As escavações se encerraram em 1823, mas muitas passagens e salas amplas de estocagem continuaram a ser usadas por um tempo.

Se você mora em São Cipriano, deve saber que, além do fato de comprar ou alugar uma casa nesta área ser MUITO CARO, futuros proprietários precisam de uma permissão especial da prefeitura para fazer reformas, sobretudo se forem escavar o solo. Afinal, até hoje, estes túneis ainda existem (alguns selados) e mexer com eles pode abalar severamente a estrutura não só das casas, mas como de ruas inteiras!

E como não podia deixar de ser, estes túneis possuem histórias fantásticas – algumas horripilantes! Fica para próximos posts.

A História da “Vila” de Piedade

Quem é de São Cipriano aponta o bairro de Piedade – ou Freguesia da Piedade – como sendo a periferia do município. O local onde se encontra a população mais pobre de uma cidade com uma distribuição de renda per capita mais homogênea que a média das outras no país.

E embora muitos avanços já tenham sido feitos no local – em termos de mobilidade, segurança e saneamento básico em 100% da região – o bairro ainda parece ser a área mais estigmatizada da cidade. Por quê?

Em parte, porque este local demorou para ser parte da jurisdição de São Cipriano. Entretanto, vamos contar a sua história do começo:

Como já visto na história do Mártir João, ele foi acusado de heresia e queimado na fogueira. Após a ocorrência de (supostos) milagres no mesmo dia de sua morte e da revolta do povo, o Santo Ofício teve que repensar a ordem de desfazer a vila de São Cipriano. E o local que eles escolheram para fazer a sua pequena reunião foi em uma choupana improvisada na região que hoje é a Freguesia da Piedade.

Os relatos dizem que foi uma discussão acalorada, onde alguns membros ainda queriam acatar as ordens da inquisição de desfazer a vila herege. Outros queriam oferecer a ela o perdão total. Por fim, a decisão pela segunda proposta foi escolhida após o inquisidor que ordenou a morte de Frei João suicidar-se enforcado em uma árvore, arrependendo-se de ter matado um homem beato.

Naquele dia, o Santo Ofício ofereceu o perdão à vila. E no local onde o inquisidor suicidou-se, foi erigida a capela de Santo Ambrósio de Sena, o padroeiro do perdão e da reconciliação.

É dito que muitos membros da inquisição acabaram desistindo deste ofício sangrento e decidiram ficar na vila – alguns sob o pretexto de verificar se o local realmente merecia o perdão da santa igreja e vigiá-la pelos anos que se seguiriam. Pelo menos três dos homens ficaram na cidade e estes tiveram família. Um deles foi Gião das Dores e que acabou se tornando uma figura conhecida e respeitada naquela região.

A cisma entre a Freguesia da Piedade e São Cipriano ocorreu por volta de 1840. Uma das relíquias sagradas guardadas no Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano desapareceu. Os dois padres principais da cidade, o da igreja matriz e o da igreja de Ambrósio de Sena, começaram a se acusar mutuamente pelo crime.

Por fim, o monsenhor do convento achou melhor deixar o conflito esfriar e apenas limitou-se a dizer: “a relíquia voltará para seu devido lugar um dia, pelas mãos de um homem bom”. Apesar da atitude neutra diante de um roubo de algo tão valioso, era claro que o monsenhor estava do lado do padre da igreja matriz. Isso gerou uma onda de fofocas e hostilidades entre o restante dos habitantes da cidade e os da Freguesia da Piedade.

Foi nessa época que o lugar praticamente declarou ‘independência’ de São Cipriano. Separada do resto da cidade pelo Sítio Figueira do Sol (hoje, conhecido como o bairro Figueira do Sol), eles acabaram traçando uma linha entre os territórios e se autoproclamaram Vila de Piedade.

O primeiro alcaide da vila foi Carlos das Dores, descendente de um dos inquisidores antigos e que usou o discurso de que, embora a santidade do Mártir João não devesse ser contestada, a cidade de São Cipriano era indigna e impura de um verdadeiro povo santo. E que eles, os habitantes da recém-fundada vila, seriam o verdadeiro povo de Deus merecedor daquela terra.

Durante muitas décadas a cisma entre as duas regiões se manteve. E o povo de Piedade era proibido moralmente de se encontrar com os ímpios de São Cipriano. Mas um leve contato entre as duas paróquias ainda precisava ser mantido por questões eclesiásticas legais.

O fim da vila rebelde começou quando, por volta de 1895, a suposta relíquia foi recuperada e devolvida, comprovando que o antigo padre da igreja de Santo Ambrósio de Sena é que havia sido o ladrão. Houve até boatos que a antiga igreja sob os cuidados do larápio deveria ser demolida em represália, mas por um questão (ironicamente) de piedade, a ação não foi executada. E ela existe até hoje no bairro, assim como seu antigo cemitério.

Antes da chegada do século XX, quando a república já estava instituída no Brasil, todas as cidades precisavam mandar reportes sobre seus territórios e população. Obviamente, São Cipriano precisava decidir se suas terras iriam incluir a vila ‘rebelde’ ou não. O alcaide de Piedade da época, Manoel das Dores, fez uma última tentativa de manter a divisão, mas falhou.

E na virada do século, em 1900, a Vila de Piedade voltou a ser (na verdade, nunca deixou de ser) a Freguesia da Piedade ou, simplesmente, bairro Piedade. Porém, a má fama de ‘rebeldes’ e persona non grata manteve-se e a região sempre foi a menos cuidada pela prefeitura da cidade, sendo considerado um antro de enjeitados.

Felizmente, hoje isso são águas passadas – ou pelo menos é o que dizem oficialmente – e o bairro está, aos poucos, se equiparando com o resto da cidade em qualidade de vida, embora ainda tenha um longo caminho à percorrer.

Mas a história do roubo da relíquia é só mais um dos ‘causos’ desta parte da cidade. Existem vários e eu contarei alguns deles em outros posts.

Fundação da Universidade Pontifícia São Cipriano

Qual a universidade mais antiga do Brasil? Reparem que estou falando ‘universidade’, não ‘faculdade’. A diferença entre as duas é que a primeira é focada em oferecer uma gama ampla (e universal) de cursos superiores, enquanto a segunda tende a ser mais focada em uma área – e até em um único curso. 

Teoricamente, uma universidade também permitiria que alunos tivessem a oportunidade de pegarem aulas fora do seu eixo de ensino, de modo a ampliarem seus horizontes de conhecimento. Se você estuda engenharia em uma faculdade de engenharia, você vai se centrar apenas nisso. Mas se você estudar engenharia em uma universidade, em tese você também teria liberdade para pegar aulas extras em áreas de humanas ou biológicas – mas quase ninguém faz isso, né?

Mas voltando à pergunta do primeiro parágrafo: oficialmente, a universidade mais antiga do Brasil é a Escola Universitária Livre de Manaus, criada em janeiro de 1909. Em julho de 1913, depois de ter instalado cursos de Direito, Medicina e Engenharia, passou a se chamar Universidade de Manaus e hoje pertence à Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E digo oficialmente porque há documentação histórica que comprova que a primeira universidade brasileira é a Universidade Pontifícia São Cipriano.

No ano de 1808, com a chegada da família imperial portuguesa ao Brasil, a colônia teve permissão para sair da Idade da Pedra. A imprensa, o comércio amplo e as escolas superiores foram permitidas em solo brasileiro. Embora houvesse tentativas de se criar cursos desde tipo desde 1792, com a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho no Rio de Janeiro, estas eram instituições que ainda careciam de muitas diretrizes básicas para serem classificadas como ensino superior.

Foi por Carta Régia que as primeiras faculdades de medicina e direito foram criadas no solo brasileiro, mas alguns ensaios de instituições do tipo já ocorriam discretamente. Uma delas foi o Ateneu Mártir João, fundado em 1791 em São Cipriano como sendo uma escola de arte e poesia. Alguns livros europeus eram contrabandeados e copiados em antigas máquinas de prensa rudimentares. Mas foi ali que surgiu a semente do que viria a se tornar a universidade que conhecemos hoje.

Em 1819 o Ateneu já possuía cursos de direito, letras, teologia, filosofia, literatura e até um curso de engenharia, que na época era considerado assunto de militares e não de civis, já estava em pleno funcionamento com a ajuda do conhecimento dos livros de John Smeaton e seus pupilos.

Medicina também encontrava-se entre seus cursos, embora fosse disfarçado da maioria das pessoas – já que era um assunto tabu na época, além de ter a necessidade de receber uma autorização especial da coroa para ser exercida – recebendo apenas o nome de ‘Ensino da Cura’. Foi só em 1870 que pode receber a autorização e o nome oficial de ‘Curso de Cirurgia’.

Como pode-se ver, apenas uma década após a chegada da família imperial português ao Brasil, o Ateneu Mártir João já possuía uma amplitude de cursos bastante extensa. E a melhor parte era que mulheres também eram aceitas desde aquela época, tanto como estudantes como professoras.

Infelizmente, os registros que poderiam oficializar a instituição como a universidade mais antiga do país tiveram que ser camuflados. Na época, havia a necessidade de se prestar contas sob absolutamente tudo para a família real, então informações conflituosas sobre a localidade de tais cursos – que não eram permitidos longe das grandes metrópoles – eram necessários para que a guarda real não viesse e simplesmente destruísse todo o trabalho intelectual com um simples decreto.

Foi somente em 1921 que as várias faculdades do Ateneu – que, àquela altura, já tinha se espalhado para diversos prédios por toda a cidade – foram reconhecidas como um centro universitário próprio, recebendo o nome oficial de Universidade Pontifícia São Cipriano. A demora no reconhecimento também se deve devido à burocracia eclesiástica no Brasil que nunca viu com bons olhos os clérigos da cidade.

E esta é a história da fundação da universidade, mas ainda há mais histórias interessantes sobre ela!

Ibijuru, a Terra da Tristeza

Poucas matas nativas no coração do sudeste mantiveram-se tão intactas quanto a Floresta Ibijuru, localizada dentro do município de São Cipriano. As lendas e superstições do local desencorajaram fazendeiros e mineradores a explorar a área por séculos.

A história desta região começa com o massacre de uma tribo indígena pelos colonizadores no final do século 16. As tentativas frustradas de se conseguir estabelecer uma comunidade deu-se por causa de surtos de doenças que acometiam todos os que tentavam viver ali. Lendas dizem que o pajé da tribo massacrada tinha lançado uma maldição sobre a terra, condenando todos que tentassem estabelecer morada no local.

Plantações não cresciam e árvores frutíferas não davam frutos. Doenças se espalhavam pela população e também pelos animais. Alguns poucos sobreviviam tempo suficiente para atacarem vítimas incautas e transmitirem suas enfermidades também aos humanos.

Ibijuru e sua fama maldita mantiveram-se por mais de um século, até a chegada de Frei João, em 1708. Ele estabeleceu a Vila de São Cipriano na região, que se tornou próspera rapidamente. Aquilo acabou chamando a atenção das pessoas, que acreditavam que alguma espécie de milagre – ou poderosa bruxaria – teria operado naquele pedaço de floresta.

Como na maioria dos relatos antigos, é difícil ter certeza do que se passou naquela época. Historiadores não descartam a possibilidade de que os primeiro colonos, crentes nas superstições locais, acabaram exagerando os problemas encontrados durante o desbravamento da área em seus relatos, assustando futuras tentativas de assentamento.

Sobre o surto de doenças, alguns afirmam que, após o massacre da tribo de índios, enfermidades teriam se espalhado por causa do descarte inadequado dos cadáveres. A possibilidade dos próprios índios, tendo visto a sua destruição iminente, terem preparado alguma espécie de veneno para poluir a terra e torna-la imprópria para o plantio também não está descartada.

Seja como for, após muito tempo em estado selvagem, um pedaço de Ibijuru se tornou a Vila de São Cipriano. Enfim, um grupo de colonos conseguiu prosperar naquela região de mau agouro, mas este não foi o fim das lendas.

Para aqueles que moravam na orla da floresta, avistamentos estranhos e sons apavorantes continuaram a povoar as conversas rotineiras. Incautos que adentravam no meio da mata voltavam apavorados com as coisas que diziam ter visto – isto quando conseguiam voltar.

Sobre os elementos sobrenaturais da floresta, irei relatar em outro post. Neste aqui, vamos conhecer alguns aspectos de Ibijuru que são bastante naturais.

Tamanho

Com quatro mil hectares de extensão, a floresta de Ibijuru é uma área preservada de mata atlântica, mantendo-se praticamente intacta desde a fundação da cidade. É entrecortada pelo Rio dos Tombos, que nasce na região e desemboca em direção à malha urbana. Seu ponto mais alto é o Pico da Iraúna, com 600 metros de altitude, seguido pela Colina do Urubu, que abrigou durante muitos anos o Sanatório da Piedade e demarca o limite da cidade.

Diversas tentativas de loteamento da área foram feitas, mas sem sucesso. A ocupação irregular chegou a ser um problema no início do século XX, mas nunca chegou a realmente a ameaçar a região. O Parque da Iraúna permite a entrada de visitantes e possui diversas trilhas, embora boa parte da floresta permaneça fechada à visitação.

Iraúna

Também conhecido como ‘graúna’ no nordeste e ‘merlão’ em algumas regiões do sudeste, este pássaro é o símbolo de São Cipriano. Uma grande quantidade deles pode ser encontrada na floresta e até mesmo na cidade, sendo mais comuns que os pombos urbanos.

Embora este espécie de pássaro não seja conhecida entre aquelas que conseguem mimetizar a linguagem humana (como papagaios, araras e corvos) há muitos relatos de iraúnas de São Cipriano que conseguem falar.

Aranha-do-Fogo

Esta espécie de aranha é encontrada praticamente só na floresta de Ibijuru. Como o nome já denuncia, é uma aranha de aparência laranja-avermelhado – um claro sinal da natureza para manter distância! Com as patas abertas, pode chegar a dez centímetros de comprimento.

O veneno desta aranha provoca tonturas, vômitos e calafrios nos primeiros momentos, para depois ser seguido de uma queimação poderosa e desmaios, podendo ser fatal em alguns casos. Como ela praticamente só existe na região, somente a Universidade Pontifícia de São Cipriano possui um laboratório que produz o antídoto.

Entretanto, alguns dizem que um antídoto efetivo contra a picada desta aranha é a cachaça Fogo de Aranha, feita na região há séculos. Trata-se de aguardente curada com uma aranha-de-fogo dentro. Quem já provou, sabe que esta bebida queima da língua ao estômago! Somente os mais fortes – e mais masoquistas – apreciam essa cachaça!

O Sanatório da Piedade – Parte 2

A história do Sanatório da Piedade começou no post anterior. De local para tratar tuberculosos, logo tornou-se num manicômio de baixa eficiência e depois um depósito de enjeitados sociais. Funcionando como um pequeno campo de concentração na sua era mais negra para, ao completar um século de idade, ser definitivamente fechado, em 1992.

Mas uma construção como aquela não poderia simplesmente ser abandonada, certo? Por isso, em 1998, o local reabriu como o Hospital Municipal Aurélio Zago.

Em termos oficiais, a história do hospital foi curta. Durou de 1998 até 2007, funcionando por menos de dez anos. Inicialmente fazendo uso apenas do prédio mais novo – o São Bernardo – que estava em melhores condições (este servia para abrigar os loucos com familiares que ainda se importavam com eles, de forma a dar uma ‘maquiada’ na verdadeira situação horrenda que se passava por detrás dos muros). Os outros três prédios foram temporariamente fechados e o sobrado onde viviam os funcionários do sanatório se tornou o dormitório dos plantonistas.

Tentativas de revitalizar os outros prédios – como o Santa Terezinha, que chegou a abrigar uma ala de fisioterapia – ocorreram, mas não foram em frente. Era comum haver uma grande rotatividade de profissionais, que relatavam não se sentirem bem trabalhando naquele lugar por muito tempo. Eles diziam que o local era desagradável, sobretudo para aqueles que conheciam a sua triste história.

Houve pelo menos um momento em que a instituição foi de suma importância na cidade. Em 2004, durante a tragédia do Incêndio da Chácara dos Caquis, o Centro Hospitalar do Município de São Cipriano (antiga Santa Casa) ficou lotado de feridos. O prédio Santa Dimpna havia acabado de concluir a reforma e suas salas foram utilizadas, em caráter emergencial, como ala especializada para tratar pacientes queimados.

Diversas pessoas foram atendidas com eficiência no local durante todo o período de funcionamento do hospital. Não houve nenhuma reclamação grave – além das eventuais filas e falta de medicamentos – mas estava claro que uma espécie de nuvem negra pairava sobre aqueles prédios. E isto ficou mais claro quando um caso de combustão espontânea ocorreu dentro do prédio Santa Dimpna e que, ainda por cima, fez vários outros pacientes que testemunharam o evento ficarem traumatizados e implorando, mesmo em estado grave, para saírem dali.

Este foi apenas o primeiro caso que foi amplamente divulgado pela mídia de ‘ocorrência sobrenatural’ no lugar. Mas a verdade é que desde a inauguração do hospital que vários contos assustadores começaram a surgir.

A má fama apenas aumentou e, com o tempo, o hospital passou a ser evitado. Funcionários acabavam sendo dispensados por problemas de saúde, sobretudo psicológicos, ao trabalhar no lugar. Por fim, a prefeitura decidiu abandonar o hospital e concentrar seus insumos na Santa Casa de São Cipriano, que mantinha-se como o hospital público mais prestigiado da cidade.

Agora o local terá seus prédios demolidos e sua área será revitalizada. Será que isto irá enterrar para sempre a má fama do lugar?

Vamos conhecer alguns casos sobrenaturais que ficaram notórios sobre o sanatório e o hospital que veio depois:

O Paciente Fantasma

O primeiro relato aconteceu em uma noite de 1999 quando uma enfermeira ouviu a campainha de um dos quartos ser tocada. Um homem magro, de aparência sofrida, estava em uma maca e pediu para a mulher buscar alguma coisa para apaziguar a dor. Embora os remédios só pudessem ser dados no horário que seguia a lista, a enfermeira se compadeceu do enfermo e decidiu procurar algum analgésico para ele.

Ela foi até a enfermaria, quando se deu conta de que havia se esquecido do número do quarto para poder checar na ficha do paciente se ele tinha alguma alergia a certos tipos de composto. Ela teria visitado praticamente todos os quartos daquele andar (e até de outros andares), mas não encontrou o paciente misterioso em nenhum deles. Embora ela tivesse quase certeza absoluta que o quarto onde ela tinha entrado era justamente um dos que estavam vazios naquela noite.

O mesmo evento do ‘Paciente Fantasma’ se repetiu nos anos seguintes, com médicos e enfermeiros confusos, tendo a certeza que viram um homem de aparência muito sofrida implorar por analgésicos em um dos quartos – mas sem se lembrar qual era o número.

Premonição da Morte

Em 1974 uma adolescente de 16 anos chamada Lúcia Zanluchi foi internada no Sanatório da Piedade sob um quadro de ‘histeria delirante’. Ela alegava ver cenas da sua própria morte todos os dias e havia tentado se suicidar, alegando que preferiria tirar a própria vida do que sofrer a morte dolorosa que ela tinha visto em sua premonição.

 A jovem foi internada pela primeira vez no dia 22 de fevereiro daquele ano, sempre repetindo aos enfermeiros, aos prantos, que sonhou que tinha sido violentada e depois afogada. No dia 27 de fevereiro, ela subitamente se acalmou e não apresentou mais quadro histérico, sendo liberada no dia 2 de março. E, naquela mesma semana, foi divulgado nos jornais que o corpo de uma mulher desconhecida foi encontrado afogado no Rio dos Tombos, com sinais de violência sexual.

A segunda internação ocorreu em outubro do mesmo ano, desta vez com a paciente alegando que seria morta sob tortura pelas mãos de um homem alto, de bigode, e mancha escura no rosto. No final do mês a jovem acalmou-se novamente, porém um clima desagradável se formou na polícia da cidade que, na época, já tinha suspeitas que o Capitão Mainardi (cuja aparência se encaixava na descrição da jovem) estava ligado a grupos de tortura naqueles anos da ditadura. Algo que a polícia da cidade (pelo menos oficialmente) sempre repudiou por completo.

A terceira internação foi definitiva, com Lúcia sendo internada no dia 7 de maio de 1975, mais uma vez alegando que seria morta de uma forma dolorosa e trágica. Ela foi medicada de todas as formas possíveis, mas só se acalmou novamente – e sem motivo aparente – semanas depois. Porém, a família decidiu que ela deveria ficar na instituição por mais tempo.

Seus quadros de histeria iam e voltavam, com semanas da jovem delirando, até enfim se acalmar durante alguns dias. E isto durou até a sua liberação do sanatório, em 1992. Ela faleceu em 2 de dezembro daquele ano, em paz, um dia depois de ter tido ‘a visão mais bela do mundo’, dizendo que teria uma morte tranquila e que anjos iriam busca-la.

Porém, mesmo após o falecimento de Lúcia, muitos médicos, enfermeiros e pacientes ainda a viam nos corredores do hospital, com ela sempre os alertando sobre mortes trágicas que os aguardavam – e que, invariavelmente, aconteciam.

Mas houve casos de pessoas que tentavam evitar a situação relatada por ela e tinham sucesso. Uma médica teria dito que viu a fantasma avisando que ela ‘morreria queimada em uma explosão’. Intrigada, a mulher decidiu checar condições do cotidiano que poderiam levar a uma situação como aquela e descobriu, chocada, que a mangueira do botijão de gás em sua cozinha estava corroída. Após o conserto, a macabra profecia de morrer em uma explosão, felizmente, não aconteceu.

A Criança do Porão

Casos de estupro não foram incomuns dentro das paredes do Sanatório da Piedade, gerando proles. O procedimento comum era o aborto, mas houve pelo menos um caso notório de uma criança que nasceu e foi criada na instituição.

O nome da criança era Moisés, sem sobrenome, nascida no ano de 1981. Um dos psiquiatras (as suspeitas é que o menino fosse filho dele) ordenou que ele fosse cuidado dentro do sanatório, mais especificamente no porão do prédio Santo Agostinho. Tendo como contato com o mundo externo apenas algumas auxiliares e o próprio psiquiatra, a criança cresceu isolada até o dia em que saiu do porão pela primeira vez, em 1986, após alguém esquecer a porta aberta.

Poucos no sanatório sabiam da existência de Moisés e, por isso, quando foi visto por alguns enfermeiros, muitos acreditavam que ele era filho de um dos pacientes internados e que veio para uma visita. Moisés – que tinha dificuldade em se comunicar devido ao pouco contato social que teve a vida toda – foi conduzido até o prédio São Bernardo (onde ficavam os pacientes mais bem tratados) e foi dito a ele para apontar quem era seu pai ou sua mãe. Uma das mulheres o ‘reconheceu’ como filho e disse que passaria o dia com ele.

No dia seguinte o psiquiatra foi visto gritando com os enfermeiros, embora não comentasse o real motivo da sua braveza. Após ouvir a notícia da ‘criança perdida’ no hospital ele, imediatamente, foi até o quarto da paciente que alegou ser mãe dele. Quando chegou no quarto, a mulher disse que a criança já tinha ido embora, entretanto não sabia dizer para onde.

Os relatos dizem que a paciente chegou até a ser torturada para revelar o que tinha feito com a criança, mas ela insistia em dizer que Moisés tinha simplesmente ‘ido embora’. Em uma das sessões de tortura, ela teria morrido por acidente.

A criança nunca mais foi encontrada, mas há relatos que, durante a noite, é possível escutar vozes de criança vindas do porão do prédio Santo Agostinho.

O Sanatório da Piedade – Parte 1

Vamos fazer uma pausa na sequencia histórica dos post e fazer um salto para o final do século 19 para podermos encaixar com uma notícia recente.

Ontem, saiu na mídia que o terreno do antigo Hospital Municipal Aurélio Zago havia sido vendido para uma empreiteira para ser demolido e virar um condomínio de apartamentos populares.

Após décadas, a prefeitura finalmente conseguiu se livrar daquele elefante branco. Quem mora em São Cipriano já conhece a história: o local, que antes era um sanatório para tuberculosos, depois se transformou em hospício. Lendas bem macabras cercam seus corredores e, para aqueles que não as conhecem, irei relatar no blog em dois posts. Começando, como sempre, com a apresentação.

Na última década do século 19, a prefeitura da cidade autorizou a construção de um local para tratamento de tuberculosos. A Colina do Urubu foi escolhida por ser o ponto mais alto da cidade, bem arejado e tranquilo, o que muitos acreditavam ser essencial para a melhora do quadro clínico dos tuberculosos, na época.

O sanatório foi concluído em 1892 e, embora recebesse alguns repasses da prefeitura para atender a população carente, também tinha espaço para clientes particulares. Lá, eram levados os tuberculosos para serem tratados da doença – que, na época, não tinha cura. A maioria ia para viver seus últimos anos de vida com um mínimo de tratamento.

A planta inicial tinha três prédios de dois andares, mais o térreo, posicionados a formar um ‘U’, com um grande jardim no meio deles – que era a área onde as visitas vinham ver seus enfermos. Havia um grande terreno ao redor que permitia que os pacientes tomasse ar puro e, caso estivessem em condições, realizar algumas atividades ao ar livre, como jardinagem.

O prédio Santo Agostinho era o que recebia os pacientes pagantes. Eram vinte quartos individuais por andar, além de salas de atendimento bem equipadas no térreo. Os outros dois prédios tinham corredores de acesso separados, o que já indicava que os pacientes colocados ali não desfrutariam dos mesmos luxos. Os prédios se chamavam Santa Terezinha e São José e eram destinados aos pacientes amparados pela prefeitura, o primeiro para as mulheres e o segundo para os homens. Não havia quartos individuais, apenas duas grandes enfermarias coletivas com lotação para sessenta pessoas cada uma.

Médicos atendiam a todos, embora fosse claro que eles eram mais atenciosos com os hóspedes do prédio Santo Agostinho. Alguns freis e freiras da ordem do Mártir João de São Cipriano trabalhavam como voluntários, auxiliando os moribundos em seus momentos finais. Mesmo assim, a mortalidade era bastante alta, com mais de 75% dos pacientes morrendo nos primeiros quatro anos internados no local.

Por esta razão os dois prédios para a malta nunca sofriam de superlotação, o que não foi o caso do prédio Santo Agostinho. Em 1913, todos os quartos estavam ocupados e alguns pacientes tiveram que dividir seu espaço. Embora a regra fosse conservar o decoro de apenas colocar pessoas do mesmo sexo para dividir quartos houve pelo menos um caso de um casal que pediu para morarem juntos – uma vez que sabiam que nenhum dos dois jamais sairia vivo do local, já que a tuberculose não tinha cura.

Com o tempo, sobretudo com os avanços da medicina, não foi mais necessária a existência de sanatórios para abrigar tuberculosos. Logo começou a surgir ‘espaço vago’ e, no ano de 1952, o Sanatório da Piedade passou a aceitar pessoas com distúrbios psiquiátricos. O prédio Santa Terezinha ficou reservado apenas para os poucos tuberculosos pobres que ainda viviam no local e o São José mudou de nome para Santa Dimpna, a padroeira dos loucos.

O andar superior sofreu modificações para abrigar os loucos de classe mais alta com a união de dois quartos, totalizando treze. Mas logo ficou claro que, enquanto o numero de tuberculosos caia, o de loucos crescia. O prédio Santo Agostinho também foi modificado para receber pacientes insanos e, em 1969, o local foi oficialmente transformado em uma instituição psiquiátrica em sua totalidade.

Embora nunca tenha recebido o nome de ‘hospício’, o nome Sanatório da Piedade logo virou sinônimo de asilo de loucos. Foi nesta época que os trabalhos voluntário dos freis e freiras foi dispensado, uma vez que lidar com pessoas insanas exigia um grau de proficiência maior do que simples boa vontade, na visão do diretor da época. E as histórias da instituição médica, que já eram tristes na época dos surtos de tuberculose, ficaram horripilantes.

O quarto prédio foi construído em 1966, de frente ao prédio Santo Agostinho, e recebeu o nome de São Bernardo. É possível notar que era o prédio mais novo pela arquitetura mais moderna e pela presença de dois andares extras. Assim como o prédio supracitado, ele tecnicamente também seria destinado à pacientes com famílias de maior poder aquisitivo, com trinta quartos separados nos três andares superiores, e várias salas de tratamento no térreo e primeiro andar.

Com o tempo, a diferença de classes passou a ficar nebulosa. Todos que eram levados para lá, a não ser que houvesse familiares que visitassem seus parentes com frequência, acabavam abandonados e maltratados. As já famosas terapias de choque eram utilizadas em larga escala. O local tornou-se um reduto de excluídos sociais, muitas vezes levados lá sem nenhuma patologia psiquiátrica comprovada – com recomendações escritas por médicos corruptos.

Maridos que queriam se livrar de esposas – sobretudo numa época em que o divórcio só era permitido no país em caso de conjugue leproso ou insano – mandavam interna-las. Pais que não tinham paciência com filhos rebeldes diziam que estes estavam loucos. Agitadores sociais eram levados para serem dopados. Moradores de rua que eram pegos bêbados eram levados para lá à revelia. Logo, o Sanatório da Piedade tornou-se tudo, menos um local de piedade.

Durante décadas, a construção teve apenas uma longa grade, de dois metros de altura, separando o sanatório do mundo exterior. Mas quando tornou-se uma instituição psiquiátrica, foi recomendada a construção de muros altos. Um quinto prédio foi construído na área ao ar livre, separada também por muro, e destinada aos funcionários que trabalhavam no sanatório – que não queriam mais dividir o espaço comum com os loucos, limitando-se a só encontra-los na hora dos tratamentos.

Não se sabe ao certo quantas pessoas foram internadas no local com diagnóstico de insanidade, mas estima-se que tenham sido mais de dez mil indivíduos. E o recorde de pacientes internados ao mesmo tempo foi registrado em 1981, com novecentas e vinte e duas pessoas apertadas em um local onde deveria caber, no máximo, trezentas.

Relatos de pacientes dormindo ao relento e morrendo congelados à noite eram comuns, além de subnutrição e mortes por doenças que poderiam ser facilmente evitadas com um mínimo de saneamento básico.

No ano de 1992, após completar cem anos de existência, um decreto da justiça mandou fazer uma vistoria completa no sanatório e encontrou um cenário digno de campo de concentração: pessoas só pele e osso, caminhando nuas pelo espaço, sujas, feridas e adoentadas. Os poucos que ainda estavam sãos o suficiente para falar contavam sobre sessões de tortura, estupros e experimentos médicos sádicos.

Um cemitério clandestino havia sido construído nos fundos da instituição, onde vários pacientes foram enterrados como indigentes. Entre os médicos que viviam no local, um deles tinha uma sala repleta de caveiras humanas expostas como troféus. O horror foi tão grande que evitou-se de divulgar os nomes dos envolvidos – tanto vítimas quanto algozes – para poupar as famílias da exposição.

Sobre segredo de justiça, um julgamento foi realizado em 1993 e fala-se que oito pessoas foram condenadas à prisão, duas delas praticamente perpétuas já que a condenação superava 85 anos – um dos condenados teria se suicidado antes de ser transferido para o presídio. Os pacientes foram transferidos para outras clínicas ou voltaram para suas famílias.

Em 1998, a prefeitura resolveu reformar o local e transformá-lo no Hospital Municipal Aurélio Zago. Mas esta parte vamos contar no próximo post.

A Romaria dos Mutilados – Parte 1

Quem ai já ouviu a famosa música de Chico Buarque, O que Será, cuja letra fala de algo que não tem conserto, não tem censura, não tem tamanho, não faz sentido, etc. Uma letra poderosa e que, muitos não sabem, um de suas estrofes teve uma pequena inspiração em uma história de São Cipriano.

Muitas cidades do Brasil são destinos dos romeiros (que vem do termo ‘os que vão em direção à Roma’ que é considerada até hoje um destino sagrado para católicos). A mais famosa é a cidade de Aparecida, aonde vários fiéis vão em peregrinação à sua basílica no dia 12 de outubro. Outras cidades que também atraem romeiros são Canindé, Juazeiro do Norte e Santa Cruz dos Milagres. Algumas por serem a terra natal de beatos brasileiros, locais onde supostos milagres teriam ocorrido e outras por serem, simplesmente, um ponto de encontro antigo dos devotos.

Depois de toda a história envolvendo os milagres de Mártir João, era natural que a cidade de São Cipriano tenha se tornado destino de muitas pessoas em busca de auxílio espiritual. Alguns vinham com o propósito de se tornarem moradores, outros queriam apenas estar no local onde um grande milagre teria ocorrido.

A fama se espalhou e, segundo o diário de um padre da época, uma romaria de mil indivíduos teria chegado às portas da igreja de São Cipriano no dia 31 de outubro de 1778 para orar e pedir bênçãos.

Porém, o grande movimento de pessoas não agradou muito algumas pessoas do clero, que ainda viam com desconfiança o culto a São Cipriano e ao Mártir João. Em especial, não gostavam de ver o fluxo de dízimos e oferendas ir para a incipiente vila ao invés dos templos mais famosos das grandes cidades. Para piorar, os relatos que os milagres em São Cipriano “funcionavam melhor” também desmoralizavam os outros pontos de romaria.

Nesta época, pessoas de várias partes do sudeste iam em direção à cidade, em especial muitas pessoas da capitania de Minas Gerais. Nesta época, após vários conflitos como a Guerra dos Emboabas e a Revolta de Filipe dos Santos nas décadas anteriores, o palco estava armado para a Inconfidência Mineira surgir. Como todos aqueles que estudaram um mínimo de história sabem a revolta foi duramente reprimida pela coroa portuguesa em 1789, culminando na morte de Tiradentes.

Quando uma nova romaria foi preparada para ir em direção a São Cipriano, no mesmo ano da derrota dos separatistas, correram boatos de que inconfidentes estariam misturados aos romeiros para seguirem até a capital, Rio de Janeiro, e tomarem o poder. A cavalaria real foi acionada com a missão de prender os supostos revoltosos.

No dia 31 de outubro de 1789, já nas cercanias da vila, os romeiros foram abordados pelos soldados portugueses. Foi ordenado que todos se ajoelhassem enquanto eram revistados. A maioria obedeceu, mas um pequeno grupo de devotos recusou-se, afirmando que estavam apenas seguindo para a vila para pedir graças e agradecer às já alcançadas.  

Estes foram espancados e revistados com mais violência, muitos dele sendo deixados nus no meio da estrada. Ao constatarem que os romeiros não traziam armas, nem qualquer coisa de valor, os soldados foram embora, ordenando que todos voltassem para suas casas.

Alguns recusaram-se e, após a partida dos soldados, retomaram a romaria, encarando o acontecido como uma prova de fé. No dia seguinte, após o aniversário da cidade e do martírio de Frei João, uma pequena procissão de homens e mulheres feridos, com as roupas rasgadas e braços e pernas quebrados, avançaram até a igreja de São Cipriano.

O espetáculo assustou os moradores, assim como os membros da guarda portuguesa que haviam se instalado na vila antes de seguirem seu rumo de volta ao Rio. Contrariados, alguns soldados atacaram ferozmente a procissão, estourando cabeças com tiros de arcabuzes e decepando membros com os sabres afiados. Porém, talvez tomados por uma espécie de transe divino – ou loucura coletiva – a procissão seguiu seu caminho até a igreja para orar.

É dito que pelo menos vinte pessoas conseguiram chegar até a igreja, sangrando e orando em devoção fervorosa. E antes que os soldados terminassem de mata-los, membros da vila foram em defesa dos romeiros. Com o moral baixo, os soldados não tiveram escolha a não ser ir embora. O caso tornou-se tão vexatório que foi riscado dos registros oficiais da guarda portuguesa.

O convento e o mosteiro da vila acolheram os romeiros feridos, cuidando deles o melhor que podiam, apesar de alguns deles terem vindo a óbito poucos dias depois. Os que foram mortos pelos soldados receberam uma missa pública que os homenageou como novos mártires e os corpos foram devolvidos às cidades de origem com dinheiro arrecadado pelos próprios moradores de São Cipriano.

Dos sobreviventes, três ficaram na cidade: José Ribeirinho, Tereza do Amor Divino e Paulo Órfão, cujos pais foram mortos pelos soldados durante a romaria. Os três foram ordenados entre os freis e a freiras de São Cipriano.

Até hoje, na cidade, existe um evento em honra ao trágico evento dos romeiros que é conhecido como A Romaria dos Mutilados. Ocorre todo dia 1 de novembro e é representado por homens, mulheres e crianças caminhando com bastões e com falsas tipoias nos braços e pernas para representar os feridos.

Uma missa é realizada em honra a eles no dia 2 de novembro, Dia de Finados, e um pequeno monumento, que existe até hoje no cemitério da igreja, foi erigido em honra aos caídos. Lá, também estão enterrados os três sobreviventes que se dedicaram à fé após a terrível provação.

Porém a história destes romeiros ainda daria pano para outras histórias, bem mais assustadoras. Mas estas ficam para o próximo post.