O ano presumível do nascimento de Mártir João de São Cipriano é 1685, ano em que ele foi abandonado, ainda bebê, em um convento franciscano na vila de Nossa Senhora dos Remédios do Rio de Contas, futura cidade de Itacaré, na Bahia.
Criado entre os frades, ele abraçou o hábito e tornou-se, desde cedo, um aprendiz exemplar. Era particularmente estudioso, esforçado e tinha um carisma que o fazia ser caro por todos os que o rodeavam. O Superior do convento relatava que poucos tinham tanto apreço pela leitura quanto o jovem João, tornando-se fluente em português, latim e italiano.
Aos quatorze anos o rapaz tornou-se especialmente obcecado pela história de Roger Bacon, franciscano inglês de grande intelecto e conhecimento da incipiente ciência do século onze. O diário de um dos monges que conviviam com ele dizia que, certa vez, ele teria afirmado: “Se irmão Roger desbravou os Mistérios do mundo material, eu devo desbravar os Mistérios do mundo imaterial!”. Tal alegação teria feito alguns freis começarem a se preocupar com sinais de insubordinação de João.
Em 1704, aos dezenove anos, Frei João teve permissão para sair do convento e fazer sua pregação pela estrada. Aproveitando o recente Tratado de Methuen entre Inglaterra e Portugal, ele teria embarcado em um navio para a Grã Bretanha, disposto a conhecer mais sobre Roger Bacon – apesar do perigo que o país tinha se tornado para católicos.
As pessoas só teriam notícias do Frei quando ele desembarcou na vila de Santos, em fevereiro de 1708. Não se sabe ao certo onde ele andou naqueles últimos quatro anos, mas ele estava de volta ao Brasil com uma missão: expurgar o mal de uma região adoecida dentro do país.
No mês de outubro de 1708, acompanhado por alguns fiéis que o seguiram pelo caminho até o interior da região sudeste, ele chegou em Ibijuru e proclamou que, ali, ele ergueria uma vila em homenagem à São Cipriano, o conhecedor dos Mistérios do Imaterial. A vila foi fundada no dia 31 daquele mesmo mês com a inauguração da capela de São Cipriano.
O local começou a prosperar depressa, à despeito da fama de terra maldita. O Frei tornou-se o alcaide e era responsável por todos os assunto administrativos, juntamente com alguns irmãos leigos. A Vila de São Cipriano começou a ganhar fama súbita, alguns a considerando um lugar santo, outros acreditando que alguma espécie de feitiçaria estranha era realizada ali.
No inverno de 1716 o Santo Ofício – que fazia pequenas incursões na colônia para averiguações – foi chamado ao local após uma denúncia de que o Frei João estava realizando rituais de bruxaria na vila. Há suspeitas que a denúncia tenha vindo de um antigo colega de Frei João do convento de Nossa Senhora dos Remédios do Rio de Contas – alguns meses antes da chegada dos inquisidores o monge teria recebido velhos amigos na capela.
Naquela época, sendo colônia de Portugal, o Brasil não tinha tribunal. E acusações de bruxaria tinham que ser enviadas primeiro para o país colonizador e depois o resultado era enviado por carta para ser executado no lugar do crime. Levaria meses, obviamente. E alguns figurões da região viram nisto a oportunidade perfeita para que um julgamento de verdade ocorresse naquele solo e elevasse a jurisdição no país. Ninguém questionaria a urgência de um ato liderado por homens santos, afinal de contas.
O jovem franciscano foi interrogado, assim como várias pessoas próximas a ele. O Santo Ofício teria ameaçado as pessoas da vila a confessarem suas heresias, ao que Frei João interferiu. Ele teria dito que preferiria receber ele toda a responsabilidade por qualquer displicência que poderia ter ocorrido no vilarejo. Tomando isto como uma quase confissão, o inquisidor teria dado permissão a seus carrascos para torturarem o frei até ele confessar que era um bruxo – algo que ele jamais fez.
Embora relatos de torturas fossem escondidos da população, algumas pessoas diziam que a casa que foi cedida para o Santo Ofício trabalhar tinha manchas de sangue espalhadas no chão e nas paredes do pequeno porão. Um dos carrascos teria confessado anos depois que um dos olhos do frei teriam sido arrancados durante uma sessão de tortura pelo inquisidor chefe, frustrado por não obter confissão nenhuma após semanas de tentativas.
Finalmente, sem ter mais nada com o que se basear, o Santo Ofício teria acusado o frei oficialmente de usar o nome de um falso santo – São Cipriano “o Bruxo”, e não São Cipriano, Bispo de Catargo, que teria sido o verdadeiro santo canonizado pela igreja católica – para erigir uma capela. Diante da recusa do frei em mudar o nome da capela e da vila, ele foi condenado à fogueira por heresia e a vila seria oficialmente debandada após sua execução. A sentença foi assinada no dia 13 de agosto de 1717 (na ocasião, uma sexta-feira).
Como último pedido, o frei teria escolhido o dia do nono aniversário de sua vila, para ser imolado. Os inquisidores acataram o pedido, acreditando que o simbolismo seria providencial para acabar com o moral dos habitantes da vila.
Na manhã nublada do dia 31 de outubro de 1717, Frei João de São Cipriano foi queimado vivo na fogueira aos 32 anos de idade. E, segundo testemunhas, não proferiu um único grito de dor.
Alguns fiéis ainda tiveram o ímpeto de correr na direção do frei e tentar salvá-lo, recebendo surras e ameaças de morte dos guardas que vigiavam a fogueira pela tentativa. Enquanto seu corpo era queimado até os ossos, uma poderosa ventania teria soprado na cidade, carregando cinzas por toda a região e, por pouco, não apagando a imensa fogueira.
Antes do anoitecer, relatos sobre milagres realizados pelas cinzas do frei começaram a surgir por toda a vila. Pessoas haviam se curado de doenças, tiveram ferimentos suturados, membros quebrado que voltavam a se mexer, cegueiras foram remediadas e até animais desenganados voltaram à ter vigor. O caso mais famoso foi do bebê natimorto Lázaro Romãzeira, que teria ressuscitado após uma lufada de vento ter trazido as cinzas do frei para dentro de casa.
No dia seguinte, os habitantes da vila uniram-se e hostilizaram o Santo Ofício, dizendo que prefeririam morrer todos do que abandonar o local que seu santo frei havia fundado. Além da pressão popular, alguns dos inquisidores também teriam acreditado na santidade do frei, arrependendo-se do que tinham feito. Dizem que o chefe inquisidor suicidou-se no dia dois de novembro, pedindo perdão à João e chamando-o de mártir.
Após toda a comoção, o Santo Ofício decidiu voltar atrás na decisão e manter a vila intacta, além de expurgar o nome de Frei João de qualquer culpa herética. Para isto, queimaram todos os registros do caso, escondendo o engano cometido e, possivelmente, o único caso de execução feita na fogueira no Brasil. Porém, a história se manteve viva através do boca-a-boca na região.
Nos dias de hoje, a igreja reconhece o frei como Bem-Aventurado Frei João, mas aqui, na cidade que ele fundou e que carregou no coração até o momento de sua morte, ele é conhecido como Mártir João de São Cipriano.