Causos do Bairro da Guilda – Os Túneis

Como já vimos neste post, o Bairro da Guilda ganhou este nome porque se tratava de uma região onde produtos de manufatura e fabricação em pequena escala eram criados na cidade (mesmo sendo proibidos pela coroa portuguesa).

Após a chegada da família imperial, em 1822, os comerciantes brasileiros puderam vender seus produtos livremente. As indústrias começaram a surgir e a fazer amplos negócios com a capital do país, Rio de Janeiro; e com a capital da província, São Paulo. Ambas eram ‘megalópoles’ com cerca de dez mil habitantes naquela época, tendo assim uma incrível demanda para produtos de todos os tipos.

Rotas de comercio começaram a se estabelecer, mas antes delas havia outras rotas secretas, longe dos vorazes olhos imperiais. Em 1805 começou a construção da ampla rede de túneis que liga várias propriedades desta parte da cidade, que citamos brevemente no post original. E agora vamos nos aprofundar (literalmente!) sobre eles.

O Homem de Metal

Siderúrgicas só começaram a surgir oficialmente no Brasil após a chegada da família imperial portuguesa. Embora tenha havido uma vã tentativa em Minas Gerais, que não deu muito certo, em 1814. Mas dois anos antes, uma poderosa caldeira estava em funcionamento na área que hoje ´´e o Estádio São Cipriano – casa do nosso time, São Cipriano Futebol Clube (em eterna segunda divisão).

Fabricando metal para usos diversos, esta pequena siderúrgica funcionava de forma sazonal, uma ou duas vezes por mês para não dar muito na vista com a sua fumaça – sem falar que os próprios moradores da cidade reclamavam da fuligem. E foi de lá que muitos instrumentos de metal de boa qualidade começaram a ser fabricados e vendidos por toda a região.

Em 1831 a siderúrgica enfim conseguiu sair da clandestinidade e foi oficializada como Fábrica de Ferro Líquido Romãzeira, liderada pelo seu dono Matheus Boa Morte. Ela funcionou por mais duas décadas, até que um acidente grave aconteceu.

Um crisol cheio de ferro fundido acabou caindo sobre cinco funcionários, ferindo gravemente dois deles e matando os outros três após alguns segundos de extrema agonia. Os feridos foram socorridos, mas um não resistiu às gravíssimas queimaduras e o outro perdeu um braço e uma perna. Um dos falecidos teve seu corpo carbonizado até os ossos, sendo que a única coisa que restou para a família enterrar foram restos de metal quebradiço.

Em uma cidade tão pequena, aquele evento caiu como uma bomba. Os moradores já não gostavam da poluição que a siderúrgica causava e se juntaram para boicotar e fechar o lugar. Matheus já era um homem velho naquela época e cinco dos seus seis filhos já tinham deixado a cidade, sem se importar muito com os assuntos da fábrica. Sem muita resistência, ele aceitou o fechamento e doou a propriedade para a cidade.

Porém as histórias sobre o Homem de Metal que caminha pelos túneis e pelos corredores vazios do Estádio São Cipriano são contadas até os dias de hoje. Aos gritos de dor, ele assusta as pessoas que tentam se aventurar nesta região à noite e até mesmo faz com que adolescentes inconsequentes que tentem entrar nos túneis restantes dali desapareçam.

Esse fantasma metálico também é considerado o motivo pelo qual o time da casa é amaldiçoado com eterna performance ruim nos jogos do campeonato paulista.

A Freira Jornalista

Quando veio a liberação da imprensa, (sob supervisão régia de Portugal em 1808) o primeiro jornal do país foi criado: a Gazeta do Rio de Janeiro. Mas antes disso duas pequenas prensas manuais já funcionavam tanto no Monastério quanto no Convento do Mártir João de São Cipriano. As cópias dos livros, mantidos escondidos dentro destas instituições, encontraram nos túneis e salas secretas da guilda um lugar extra para manter seus escritos em segurança.

Em 1821, com a censura prévia mais afrouxada, o primeiro jornal da cidade de São Cipriano foi oficializado – e quem o escrevia era uma freira.

Irmã Donizete ‘Gazeta’, como ficou conhecida, era a responsável por escrever quase em sua totalidade o jornal de quatro páginas Gazeta de São Cipriano. Considerada por muitos como uma mulher muito educada e bem letrada (tinha secretamente concluído um curso superior de literatura) ela tomou para si a missão de escrever um jornal de periodicidade bissemanal na cidade.

À primeira vista seu conteúdo parecia bastante banal. Lançado às terças e sábados, dividia-se da seguinte maneira: primeira página reunia os acontecimentos da cidade; segunda página eram notas diversas sobre coisas ocorrendo em São Paulo e Rio de Janeiro; terceira página dedicada a nascimentos, obituários, eventos da igreja e anúncios do comércio local; última página, panegíricos, orações e um pequeno editorial mais reservado a conselhos de moral cristã do que qualquer outra coisa.

Porém, em alguns destes editoriais, era possível ver um pouco das ideias ‘liberais’ da freira no que diziam respeito aos costumes da época. Pequenas entrelinhas incentivando garotas a estudarem, não dependerem apenas do marido e, sobretudo, para o povo começar a pensar em escolher seu próprio governante. É dito que estes pensamentos não divergiam muito do que o próprio povo da cidade pensava. Mas o problema começou quando cópias da Gazeta de São Cipriano começaram a ser distribuídos fora da cidade.

Em fevereiro de 1845 um homem de fora da cidade apareceu perguntando sobre o dono do jornal. Ficou perplexo quando todos confirmaram que era uma freira, e não apenas um pseudônimo de algum bacharel metido. Pediu mais algumas informações e foi embora, deixando um clima tenso no ar.

No mês seguinte, março de 1845, o homem voltou acompanhado de dois colegas do exército imperial brasileiro. Eles invadiram a pequena casa editorial do jornal e atiraram em irmã Donizete e outros três trabalhadores que estavam imprimindo outra leva da gazeta. A freira conseguiu evitar de ser morta no lugar, escapando por um dos túneis subterrâneos.

Nesse meio tempo o povo da cidade – incluindo o célebre Capitão Antenor Gomes Martins, também do exército imperial brasileiro – apareceram para render os assassinos. O invasor, descontrolado, disse que estava fazendo justiça, pois os escritos da freira estavam “destruindo a vida de moças puras, pervertendo suas cabeças e entregando-as ao demônio”. Aparentemente, uma das filhas deste militar acabou se rebelando contra o pai graças aos incentivos dos editoriais da gazeta que chegou em suas mãos.

O assassino foi abatido no local pelo seu colega de farda e seus comparsas foram presos. Logo depois, uma equipe de busca tentou encontrar irmã Donizete nos túneis, mas ela já havia falecido pela hemorragia. Mas antes de morrer, deixou algo escrito com seu próprio sangue em uma folha de papel que carregou consigo – e que teria se tornado uma página do jornal se tivesse sido impressa. É dito que este papel está guardado no monastério com muitas honras.

Ela e os três desafortunados ajudantes foram enterrados com louvores e o Gazeta de São Cipriano dedicou várias edições em homenagem à irmã Donizette ‘Gazeta’ – sua imagem se tornou o símbolo do periódico. Porém, nunca mais o jornal teve o mesmo charme de antes e acabou sendo descontinuado em 1860, sendo substituído pelo, até hoje publicado, Jornal de São Cipriano.

Quanto à irmã Donizete, é dito que ela ainda se encontra nos túneis. E se alguém precisar de algum conselho para a vida, basta ir lá embaixo (já que o antigo prédio da gazeta foi derrubado) e escrever uma mensagem para ela em um pedaço de papel. Você pode receber uma resposta no dia seguinte, no verso, escrito em vermelho.

O Portal de Tenochtitlán

Nossos hermanos mexicanos tiveram que enfrentar seus próprios problemas com colonizadores durante séculos, até o seu povo originário, os astecas, ser quase completamente dizimado. A capital de seu império era chamada Tenochtitlán e encontrava-se onde hoje é a Cidade do México. Sem me aprofundar demais nos mitos e histórias deles, vamos à parte que interessa à cidade de São Cipriano.

Por volta de 1887, nossa cidade começou a passar por uma reforma em seu saneamento básico, com grandes ‘cloacas’ sendo criadas para escoar o esgoto e levar água potável para as casas. Nesta época, uma companhia de saneamento regional chamada Águas de São Cipriano começou a escavar a terra. E, obviamente, encontraram alguns dos túneis abaixo do bairro da guilda.

Houve discussões sobre usar alguns destes túneis como cloacas, já que alguns acreditavam que eles eram patrimônios históricos e símbolos de luta do povo da cidade durante sua época como colônia. Outros simplesmente discutiam as questões logísticas de que estes túneis não foram direcionados para os locais certos da onde a água deveria escoar.

Por fim, chegaram à conclusão que uma série de túneis menores – onde era necessário um adulto andar agachado para passar – poderiam servir à causa da saúde pública, enquanto os túneis maiores e mais bem preservados se manteriam intactos.

Os trabalhadores começaram a adentrar nestes túneis menores para ver o quão longos eram, até notarem que um deles parava de forma abrupta no que parecia ser uma parede maciça de rocha vulcânica. O que não parecia fazer o menor sentido em existir ali, pois o Brasil não possui vulcões.

O chefe da empresa não entendia muito à respeito da natureza de rochas e minérios e apenas ordenou que a rocha fosse escavada, já que ela seguia na direção correta para o escoamento da água. E foi o que os trabalhadores começaram a fazer… até que um deles desapareceu sem deixar vestígios.

E o mais estranho de tudo é que o trabalho de escavação daquela rocha vulcânica parecia ter retrocedido, como se o mineral tivesse se ‘recuperado’ dos danos causados.

Mais escavações foram feitas e outros dois trabalhadores desapareceram misteriosamente. As famílias entraram em pânico e boatos começaram a se espalhar. Chegou num ponto que o próprio convento de Mártir João teve que intervir para que aquela obra fosse parada. Pelo menos naquele túnel em específico, cuja rocha vulcânica sempre parecia se restaurar dias depois de ser quebrada.

O tempo passou e, em 1893, um dos trabalhadores desaparecidos voltou para casa. E ele contava a mais absurda das histórias!

Segundo ele, enquanto trabalhava na escavação daquele túnel, o homem foi transportado para a Cidade do México. Mais especificamente para Tenochtitlán, a antiga capital dos astecas. Ele teria visto com seus próprios olhos vários momentos históricos, desde a ascensão da cidade até sua destruição dos espanhóis.

Por fim, após testemunhar tudo aquilo, ele teria acordado em choque nas ruas da Cidade do México poucos dias após o seu desaparecimento no Brasil. Foi mantido em um sanatório de doentes mentais por anos até ser liberado e conseguir, através da piedade de algumas pessoas, os meios para voltar ao seu pais.

Desde então, aquela parte específica dos túneis abaixo do bairro da guilda foram selados e nunca mais puderam ser acessados. Mas há quem diga que os antigos mapas que mostram o local ainda podem ser encontrados em algum lugar.

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Leila Carol

Leila Carol é Jornalista, formada pela Faculdade de Comunicação e Letras Emílio Romãzeira – pertencente ao grupo de Faculdades Integradas de São Cipriano.

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