A história do Sanatório da Piedade começou no post anterior. De local para tratar tuberculosos, logo tornou-se num manicômio de baixa eficiência e depois um depósito de enjeitados sociais. Funcionando como um pequeno campo de concentração na sua era mais negra para, ao completar um século de idade, ser definitivamente fechado, em 1992.
Mas uma construção como aquela não poderia simplesmente ser abandonada, certo? Por isso, em 1998, o local reabriu como o Hospital Municipal Aurélio Zago.
Em termos oficiais, a história do hospital foi curta. Durou de 1998 até 2007, funcionando por menos de dez anos. Inicialmente fazendo uso apenas do prédio mais novo – o São Bernardo – que estava em melhores condições (este servia para abrigar os loucos com familiares que ainda se importavam com eles, de forma a dar uma ‘maquiada’ na verdadeira situação horrenda que se passava por detrás dos muros). Os outros três prédios foram temporariamente fechados e o sobrado onde viviam os funcionários do sanatório se tornou o dormitório dos plantonistas.
Tentativas de revitalizar os outros prédios – como o Santa Terezinha, que chegou a abrigar uma ala de fisioterapia – ocorreram, mas não foram em frente. Era comum haver uma grande rotatividade de profissionais, que relatavam não se sentirem bem trabalhando naquele lugar por muito tempo. Eles diziam que o local era desagradável, sobretudo para aqueles que conheciam a sua triste história.
Houve pelo menos um momento em que a instituição foi de suma importância na cidade. Em 2004, durante a tragédia do Incêndio da Chácara dos Caquis, o Centro Hospitalar do Município de São Cipriano (antiga Santa Casa) ficou lotado de feridos. O prédio Santa Dimpna havia acabado de concluir a reforma e suas salas foram utilizadas, em caráter emergencial, como ala especializada para tratar pacientes queimados.
Diversas pessoas foram atendidas com eficiência no local durante todo o período de funcionamento do hospital. Não houve nenhuma reclamação grave – além das eventuais filas e falta de medicamentos – mas estava claro que uma espécie de nuvem negra pairava sobre aqueles prédios. E isto ficou mais claro quando um caso de combustão espontânea ocorreu dentro do prédio Santa Dimpna e que, ainda por cima, fez vários outros pacientes que testemunharam o evento ficarem traumatizados e implorando, mesmo em estado grave, para saírem dali.
Este foi apenas o primeiro caso que foi amplamente divulgado pela mídia de ‘ocorrência sobrenatural’ no lugar. Mas a verdade é que desde a inauguração do hospital que vários contos assustadores começaram a surgir.
A má fama apenas aumentou e, com o tempo, o hospital passou a ser evitado. Funcionários acabavam sendo dispensados por problemas de saúde, sobretudo psicológicos, ao trabalhar no lugar. Por fim, a prefeitura decidiu abandonar o hospital e concentrar seus insumos na Santa Casa de São Cipriano, que mantinha-se como o hospital público mais prestigiado da cidade.
Agora o local terá seus prédios demolidos e sua área será revitalizada. Será que isto irá enterrar para sempre a má fama do lugar?
Vamos conhecer alguns casos sobrenaturais que ficaram notórios sobre o sanatório e o hospital que veio depois:
O Paciente Fantasma
O primeiro relato aconteceu em uma noite de 1999 quando uma enfermeira ouviu a campainha de um dos quartos ser tocada. Um homem magro, de aparência sofrida, estava em uma maca e pediu para a mulher buscar alguma coisa para apaziguar a dor. Embora os remédios só pudessem ser dados no horário que seguia a lista, a enfermeira se compadeceu do enfermo e decidiu procurar algum analgésico para ele.
Ela foi até a enfermaria, quando se deu conta de que havia se esquecido do número do quarto para poder checar na ficha do paciente se ele tinha alguma alergia a certos tipos de composto. Ela teria visitado praticamente todos os quartos daquele andar (e até de outros andares), mas não encontrou o paciente misterioso em nenhum deles. Embora ela tivesse quase certeza absoluta que o quarto onde ela tinha entrado era justamente um dos que estavam vazios naquela noite.
O mesmo evento do ‘Paciente Fantasma’ se repetiu nos anos seguintes, com médicos e enfermeiros confusos, tendo a certeza que viram um homem de aparência muito sofrida implorar por analgésicos em um dos quartos – mas sem se lembrar qual era o número.
Premonição da Morte
Em 1974 uma adolescente de 16 anos chamada Lúcia Zanluchi foi internada no Sanatório da Piedade sob um quadro de ‘histeria delirante’. Ela alegava ver cenas da sua própria morte todos os dias e havia tentado se suicidar, alegando que preferiria tirar a própria vida do que sofrer a morte dolorosa que ela tinha visto em sua premonição.
A jovem foi internada pela primeira vez no dia 22 de fevereiro daquele ano, sempre repetindo aos enfermeiros, aos prantos, que sonhou que tinha sido violentada e depois afogada. No dia 27 de fevereiro, ela subitamente se acalmou e não apresentou mais quadro histérico, sendo liberada no dia 2 de março. E, naquela mesma semana, foi divulgado nos jornais que o corpo de uma mulher desconhecida foi encontrado afogado no Rio dos Tombos, com sinais de violência sexual.
A segunda internação ocorreu em outubro do mesmo ano, desta vez com a paciente alegando que seria morta sob tortura pelas mãos de um homem alto, de bigode, e mancha escura no rosto. No final do mês a jovem acalmou-se novamente, porém um clima desagradável se formou na polícia da cidade que, na época, já tinha suspeitas que o Capitão Mainardi (cuja aparência se encaixava na descrição da jovem) estava ligado a grupos de tortura naqueles anos da ditadura. Algo que a polícia da cidade (pelo menos oficialmente) sempre repudiou por completo.
A terceira internação foi definitiva, com Lúcia sendo internada no dia 7 de maio de 1975, mais uma vez alegando que seria morta de uma forma dolorosa e trágica. Ela foi medicada de todas as formas possíveis, mas só se acalmou novamente – e sem motivo aparente – semanas depois. Porém, a família decidiu que ela deveria ficar na instituição por mais tempo.
Seus quadros de histeria iam e voltavam, com semanas da jovem delirando, até enfim se acalmar durante alguns dias. E isto durou até a sua liberação do sanatório, em 1992. Ela faleceu em 2 de dezembro daquele ano, em paz, um dia depois de ter tido ‘a visão mais bela do mundo’, dizendo que teria uma morte tranquila e que anjos iriam busca-la.
Porém, mesmo após o falecimento de Lúcia, muitos médicos, enfermeiros e pacientes ainda a viam nos corredores do hospital, com ela sempre os alertando sobre mortes trágicas que os aguardavam – e que, invariavelmente, aconteciam.
Mas houve casos de pessoas que tentavam evitar a situação relatada por ela e tinham sucesso. Uma médica teria dito que viu a fantasma avisando que ela ‘morreria queimada em uma explosão’. Intrigada, a mulher decidiu checar condições do cotidiano que poderiam levar a uma situação como aquela e descobriu, chocada, que a mangueira do botijão de gás em sua cozinha estava corroída. Após o conserto, a macabra profecia de morrer em uma explosão, felizmente, não aconteceu.
A Criança do Porão
Casos de estupro não foram incomuns dentro das paredes do Sanatório da Piedade, gerando proles. O procedimento comum era o aborto, mas houve pelo menos um caso notório de uma criança que nasceu e foi criada na instituição.
O nome da criança era Moisés, sem sobrenome, nascida no ano de 1981. Um dos psiquiatras (as suspeitas é que o menino fosse filho dele) ordenou que ele fosse cuidado dentro do sanatório, mais especificamente no porão do prédio Santo Agostinho. Tendo como contato com o mundo externo apenas algumas auxiliares e o próprio psiquiatra, a criança cresceu isolada até o dia em que saiu do porão pela primeira vez, em 1986, após alguém esquecer a porta aberta.
Poucos no sanatório sabiam da existência de Moisés e, por isso, quando foi visto por alguns enfermeiros, muitos acreditavam que ele era filho de um dos pacientes internados e que veio para uma visita. Moisés – que tinha dificuldade em se comunicar devido ao pouco contato social que teve a vida toda – foi conduzido até o prédio São Bernardo (onde ficavam os pacientes mais bem tratados) e foi dito a ele para apontar quem era seu pai ou sua mãe. Uma das mulheres o ‘reconheceu’ como filho e disse que passaria o dia com ele.
No dia seguinte o psiquiatra foi visto gritando com os enfermeiros, embora não comentasse o real motivo da sua braveza. Após ouvir a notícia da ‘criança perdida’ no hospital ele, imediatamente, foi até o quarto da paciente que alegou ser mãe dele. Quando chegou no quarto, a mulher disse que a criança já tinha ido embora, entretanto não sabia dizer para onde.
Os relatos dizem que a paciente chegou até a ser torturada para revelar o que tinha feito com a criança, mas ela insistia em dizer que Moisés tinha simplesmente ‘ido embora’. Em uma das sessões de tortura, ela teria morrido por acidente.
A criança nunca mais foi encontrada, mas há relatos que, durante a noite, é possível escutar vozes de criança vindas do porão do prédio Santo Agostinho.