Causos do Bairro da Guilda – A Superfície

Nem todas as histórias do Bairro da Guilda acontecem na clandestinidade ou por conta de coisas misteriosas e inexplicáveis ocorrendo em seus túneis. Algumas são bem “pé no chão” e ainda são surpreendentes.

Ah, e ainda assim podem ter um pouquinho de elemento fantástico nelas!

Clube Escudo de São Homobono

Considerado o Country Club da cidade, seus membros originais eram os antigos mercadores da guilda. Aos poucos, eles começaram a vender títulos para outras pessoas endinheiradas de São Cipriano, até restringirem o número total de sócios para mil e quinhentos.

O clube mantêm a fachada de sua última reforma, feita em 1885. E seus espaços, que antes estocavam mercadoria, agora são uma quadra de tênis, outra de basquete, outra de vôlei, uma piscina e salas de convivência diversa – inclusive um fumódromo que, milagrosamente, ainda está ativo mesmo com as leis estaduais anti-fumo!

De vez em quando eles alugam seu salão de baile para festas de formatura. Inclusive, se tudo der certo, estarei lá no início do ano de 2013! Eba!

As histórias sobre o clube poderiam preencher uma revista de fofocas de cem páginas. E é sobre algumas das fofocas que surgiram dentro de suas paredes que iremos falar agora.

A Peeira de São Cipriano

No post sobre as Lendas da Floresta de Ibijuru nós falamos sobre o Luison, o lobisomem guarani. Agora, vamos falar da versão urbana dele.

Em quase todas as culturas do mundo existe uma lenda sobre uma criatura meio humana e meio lobo; e o Brasil não é diferente. Aqui ela tem as suas particularidades: dizem que o sétimo filho homem, ou mulher, de uma família seria amaldiçoado com a licantropia, transformando-se em lobisomem todas as noites de lua cheia. Bem, em São Cipriano houve pelo menos dois casos oficiais de famílias que tiveram filhos do mesmo sexo sete vezes de forma ininterrupta.

A família Romanzeira é bastante famosa na cidade. E em 1898 Emílio Romanzeira casou sua sétima filha mulher, Joana, com Otávio Pécora, um comerciante da região. Foi um casamento ‘apressado’, por assim dizer, com a menina saindo da casa dos pais para se casar com apenas 13 anos – algo que hoje não só seria considerado uma temeridade, mas receberia uma denúncia de pedofilia.

Mesmo nesta tenra idade, Joana Pécora deu à luz a uma criança. Porém, seu marido ficou horrorizado quando descobriu que o bebê havia nascido coberto de pelos, como um animal. O horror do novo papai foi tão intenso que dizem que ele teria tentado afogar a criança na bacia de água quente. As parteiras conseguiram controlá-lo e deixaram a mãe e a criança para descansar a sós no quarto.

No dia seguinte, os familiares encontraram a jovem mãe aos prantos, afirmando que lobos invadiram o seu quarto e levaram a criança com eles. De fato, muitos relataram terem visto sinais de arranhões na garota e pegadas de patas de canídeo no assoalho do quarto. Apesar do evento bizarro, Otávio Pécora não pareceu ficar incomodado, afirmando que não tinha interesse em encontrar o paradeiro da criança e que ele pensaria em ter um novo herdeiro depois.

Após o incidente, Joana começou a desenvolver um comportamento cada vez mais estranho. Comunicava-se com as pessoas com poucas palavras, às vezes com monossílabos ou apenas grunhidos. Ela recusava-se a comer carne assada, preferindo comer a carne mal passada e às vezes até crua. Seu temperamento foi ficando cada vez mais arredio, por vezes até violento. Uma noite, ela teria mordido a mão do marido quando este tentou se aproximar para fazerem sexo, deixando uma ferida profunda.

Otávio decidiu internar a esposa no Sanatório da Piedade e casar-se de novo, alegando que a garota era insana e incapaz de seguir com aquele casamento. Mas tendo os Romãzeira grande prestígio na cidade, eles logo foram resgatar a garota… que havia fugido do hospício antes que seu pai tivesse a chance de chegar até ela. As relações entre Otávio e seu ex-sogro ficaram péssimas e o empresário teve que sair da cidade.

Vale dizer que esta história não é a que foi divulgada nos meios oficiais. O que se sabe é que Joana deu à luz à uma criança prematura, que morreu, e que o desgosto a fez enlouquecer. E depois que ela fugiu do sanatório e nunca mais foi vista.

Porém, os que sabem mais detalhes da história que foi contada no clube dos ricaços, chamam-na de A Peeira de São Cipriano – sendo ‘peeira’ o nome para a versão feminina do lobisomem. E que ela foi viver com seu filhote na floresta, junto com outros lobos.

O Unhudo

A lenda sobre o ‘zumbi brasileiro’, que leva o nome de Corpo Seco, é relativamente famosa no sudeste. Dizem que se trata dos cadáveres das pessoas que foram tão ruins, mas tão ruins em vida que nem o diabo as aceitou. Por isso elas perambulam pela terra, na forma de cadáveres ressequidos, dispostos a fazer mais maldades.

O Unhudo de São Cipriano, no entanto, é um pouco diferente. Trata-se de um dono de terras que nunca acreditou na santidade de Mártir João. Ele veio para a região em 1902 a negócios e ficou porque a terra era farta e, para os padrões de cidades do interior, bastante populosa. Tendo dinheiro, logo comprou um título no Clube Escudo de São Homobono para se enturmar com a elite local.

Ele se recusava a ir às missas ou participar das festividades em honra ao fundador da cidade. Costumava ver com escárnio a adoração à São Cipriano, que ele chamava de falso-santo e demônio. Isto o levou a ter grande inimizade com o povo da cidade e um apelido que ele detestava: Unhudo – pois apesar de querer bancar o ‘chique’ ele quase nunca cortava as unhas das mãos e dos pés, deixando-as grossas, sujas e quase na forma de garras.

O tempo passou e o homem acabou adoecendo e morrendo. Seus familiares pediram para velar o corpo, mas nenhum padre da cidade aceitou fazer o serviço devido a décadas de desrespeito que o Unhudo tinha para com o padroeiro da cidade. Não tiveram outra opção a não ser enterrar o corpo sem missa.

Porém, é dito que no dia seguinte ao enterro, os familiares acabaram discutindo à cerca de um pedido do defunto, de ser enterrado com suas abotoaduras e anéis de ouro. O desejo foi concedido… à principio! Mas como a família estava passando por dificuldades financeiras, poucas semanas depois decidiram desenterrar o sujeito e pegar o metal precioso de volta. E, quando fizeram isso, encontraram o corpo fora de lugar e arranhados profundos de unhas na tampa do caixão.

O que poderia ser simplesmente entendido como um triste caso de catalepsia, e posterior morte por sufocamento dentro do caixão, ganhou contornos sobrenaturais quando muitos juravam ter visto o Unhudo caminhando pela cidade, arranhando portas de igrejas e capelas, desesperado para receber uma missa póstuma depois de ter zombado tanto do santo e do mártir da cidade.

O Incansável Feitor Rubião

O período de escravidão no Brasil – e em todo o mundo – não foi nada bonito.

Desde a época da independência, em 1822, já se falava em abolição da escravatura. Muitos apoiaram Dom Pedro I tendo este objetivo em mente. Porém, as décadas foram passando e nada das leis injustas serem mudadas. Em 1833 a Grã Bretanha, aliada de Portugal, começa a colocar pressão para a abolição; e nada. Em 1865 os Estados Unidos aboliram a escravidão em todo o seu território, e nada do Brasil seguir seu exemplo. A cruel marcha servil prosseguia.

A abolição só ocorreu durante o moribundo processo de destruição da monarquia brasileira, quando a Princesa Isabel fez uma última tentativa desesperada de agradar aos investidores externos do país e obter apoio para permanecer no poder, mas a elite do atraso não se agradou. Com um processo de abolição feito aos trancos e barrancos, ainda levou muito tempo para que estas leis realmente funcionassem na prática. De fato, até meados do século XX não era incomum uma família de posses ‘adotar’ crianças negras e fingir que elas tinham os mesmos direitos que os irmãos brancos, mas eram tratados como serviçais. Pásmem! Ainda no ano de 2000 houve o caso de uma brasileira e seu marido americano que mantinham uma escrava trabalhando para eles em sua casa nos Estados Unidos!

Mas um escravocrata que ficou infame na cidade foi o Feitor Rubião.

Por mais cruel que isso soe, escravos eram ‘mercadorias’ caras e precisavam de condições mínimas de tratamento humano para ‘funcionarem’ com total eficiência. Em São Cipriano os fazendeiros eram conhecidos por tratarem bem os seus escravos, muitas vezes comprando alguns que eram maltratados por outros donos de terras para dar a eles uma vida minimamente digna. E cartas de alforria eram muito comuns de serem assinadas e aprovadas pelo povo daqui.

Acervo do Tribunal de Justiça de São Paulo | Foto: Amanda Rossi/BBC Brasil

Mas havia aqueles que não apenas viam a escravidão como algo moral e natural, como abusavam dela para extravasar seu lado mais perverso. Este era o caso do Feitor Rubião Madeira.

Iniciou carreira como capataz, em meados de 1862, incumbido de capturar escravos fugidos e colocá-los na linha. Trabalhava na Fazenda (posteriormente Chácara) dos Caquis e era conhecido pela sua perversidade. Bastava alguém falar “vou chamar o Rubião!” para qualquer escravo desistir de se rebelar. Porém, mesmo com escravos com bom comportamento, o maldito ainda arrumava um jeito de puni-los.

Os maus-tratos eram tantos que o feitor acabou sendo despedido da fazenda. Mas em São Paulo, naquela época, alguém com sua habilidade era muito requisitado. Ganhou bastante dinheiro com recompensas de caça e voltou para São Cipriano em 1880, época em que todos os escravos no município já haviam recebido sua carta de alforria. Porém, como nada na lei vigente o impedia de ter escravos, ele trouxe alguns consigo e comprou um casarão no bairro da guilda.

Era casado e conhecido por abusar da família e mais ainda dos escravos. Teria se metido em mais de uma briga com habitantes da cidade por conta da violência com que ele tratava as pessoas. É dito que um guarda da cidade o teria impedido de matar uma escrava de quinze anos no meio da rua, ao que ele só gritou: “Ela é minha e eu faço o que quiser com ela!”

Desnecessário dizer que ele criou muitas inimizades. O conselho da cidade já planejava fazer alguma coisa à respeito, quando o sujeito morreu em 28 de fevereiro de 1886, o último domingo do mês. Houve a suspeita de que um de seus filhos, um rapaz que tinha ficado cocho pelas surras do próprio pai, o teria matado sufocado em sua cama. Um processo foi aberto, mas o delegado da cidade fez vista-grossa para o caso feliz da vida!

O tempo passou, os escravos foram libertos logo depois e a família Madeira continuou vivendo na cidade. Hoje, o último descendente já foi embora e o casarão permanece fechado e tombado pela prefeitura, com ninguém querendo morar nele por sentir que lá tem ‘energias ruins’.

E falando em energia ruim, é dito que até hoje o fantasma do feitor Rubião ainda vaga pelo cemitério onde foi enterrado, inconformado com a sua morte e querendo assassinar qualquer um que vê pela frente, embora ele não tenha mais este poder.

Causos do Bairro da Guilda – Os Túneis

Como já vimos neste post, o Bairro da Guilda ganhou este nome porque se tratava de uma região onde produtos de manufatura e fabricação em pequena escala eram criados na cidade (mesmo sendo proibidos pela coroa portuguesa).

Após a chegada da família imperial, em 1822, os comerciantes brasileiros puderam vender seus produtos livremente. As indústrias começaram a surgir e a fazer amplos negócios com a capital do país, Rio de Janeiro; e com a capital da província, São Paulo. Ambas eram ‘megalópoles’ com cerca de dez mil habitantes naquela época, tendo assim uma incrível demanda para produtos de todos os tipos.

Rotas de comercio começaram a se estabelecer, mas antes delas havia outras rotas secretas, longe dos vorazes olhos imperiais. Em 1805 começou a construção da ampla rede de túneis que liga várias propriedades desta parte da cidade, que citamos brevemente no post original. E agora vamos nos aprofundar (literalmente!) sobre eles.

O Homem de Metal

Siderúrgicas só começaram a surgir oficialmente no Brasil após a chegada da família imperial portuguesa. Embora tenha havido uma vã tentativa em Minas Gerais, que não deu muito certo, em 1814. Mas dois anos antes, uma poderosa caldeira estava em funcionamento na área que hoje ´´e o Estádio São Cipriano – casa do nosso time, São Cipriano Futebol Clube (em eterna segunda divisão).

Fabricando metal para usos diversos, esta pequena siderúrgica funcionava de forma sazonal, uma ou duas vezes por mês para não dar muito na vista com a sua fumaça – sem falar que os próprios moradores da cidade reclamavam da fuligem. E foi de lá que muitos instrumentos de metal de boa qualidade começaram a ser fabricados e vendidos por toda a região.

Em 1831 a siderúrgica enfim conseguiu sair da clandestinidade e foi oficializada como Fábrica de Ferro Líquido Romãzeira, liderada pelo seu dono Matheus Boa Morte. Ela funcionou por mais duas décadas, até que um acidente grave aconteceu.

Um crisol cheio de ferro fundido acabou caindo sobre cinco funcionários, ferindo gravemente dois deles e matando os outros três após alguns segundos de extrema agonia. Os feridos foram socorridos, mas um não resistiu às gravíssimas queimaduras e o outro perdeu um braço e uma perna. Um dos falecidos teve seu corpo carbonizado até os ossos, sendo que a única coisa que restou para a família enterrar foram restos de metal quebradiço.

Em uma cidade tão pequena, aquele evento caiu como uma bomba. Os moradores já não gostavam da poluição que a siderúrgica causava e se juntaram para boicotar e fechar o lugar. Matheus já era um homem velho naquela época e cinco dos seus seis filhos já tinham deixado a cidade, sem se importar muito com os assuntos da fábrica. Sem muita resistência, ele aceitou o fechamento e doou a propriedade para a cidade.

Porém as histórias sobre o Homem de Metal que caminha pelos túneis e pelos corredores vazios do Estádio São Cipriano são contadas até os dias de hoje. Aos gritos de dor, ele assusta as pessoas que tentam se aventurar nesta região à noite e até mesmo faz com que adolescentes inconsequentes que tentem entrar nos túneis restantes dali desapareçam.

Esse fantasma metálico também é considerado o motivo pelo qual o time da casa é amaldiçoado com eterna performance ruim nos jogos do campeonato paulista.

A Freira Jornalista

Quando veio a liberação da imprensa, (sob supervisão régia de Portugal em 1808) o primeiro jornal do país foi criado: a Gazeta do Rio de Janeiro. Mas antes disso duas pequenas prensas manuais já funcionavam tanto no Monastério quanto no Convento do Mártir João de São Cipriano. As cópias dos livros, mantidos escondidos dentro destas instituições, encontraram nos túneis e salas secretas da guilda um lugar extra para manter seus escritos em segurança.

Em 1821, com a censura prévia mais afrouxada, o primeiro jornal da cidade de São Cipriano foi oficializado – e quem o escrevia era uma freira.

Irmã Donizete ‘Gazeta’, como ficou conhecida, era a responsável por escrever quase em sua totalidade o jornal de quatro páginas Gazeta de São Cipriano. Considerada por muitos como uma mulher muito educada e bem letrada (tinha secretamente concluído um curso superior de literatura) ela tomou para si a missão de escrever um jornal de periodicidade bissemanal na cidade.

À primeira vista seu conteúdo parecia bastante banal. Lançado às terças e sábados, dividia-se da seguinte maneira: primeira página reunia os acontecimentos da cidade; segunda página eram notas diversas sobre coisas ocorrendo em São Paulo e Rio de Janeiro; terceira página dedicada a nascimentos, obituários, eventos da igreja e anúncios do comércio local; última página, panegíricos, orações e um pequeno editorial mais reservado a conselhos de moral cristã do que qualquer outra coisa.

Porém, em alguns destes editoriais, era possível ver um pouco das ideias ‘liberais’ da freira no que diziam respeito aos costumes da época. Pequenas entrelinhas incentivando garotas a estudarem, não dependerem apenas do marido e, sobretudo, para o povo começar a pensar em escolher seu próprio governante. É dito que estes pensamentos não divergiam muito do que o próprio povo da cidade pensava. Mas o problema começou quando cópias da Gazeta de São Cipriano começaram a ser distribuídos fora da cidade.

Em fevereiro de 1845 um homem de fora da cidade apareceu perguntando sobre o dono do jornal. Ficou perplexo quando todos confirmaram que era uma freira, e não apenas um pseudônimo de algum bacharel metido. Pediu mais algumas informações e foi embora, deixando um clima tenso no ar.

No mês seguinte, março de 1845, o homem voltou acompanhado de dois colegas do exército imperial brasileiro. Eles invadiram a pequena casa editorial do jornal e atiraram em irmã Donizete e outros três trabalhadores que estavam imprimindo outra leva da gazeta. A freira conseguiu evitar de ser morta no lugar, escapando por um dos túneis subterrâneos.

Nesse meio tempo o povo da cidade – incluindo o célebre Capitão Antenor Gomes Martins, também do exército imperial brasileiro – apareceram para render os assassinos. O invasor, descontrolado, disse que estava fazendo justiça, pois os escritos da freira estavam “destruindo a vida de moças puras, pervertendo suas cabeças e entregando-as ao demônio”. Aparentemente, uma das filhas deste militar acabou se rebelando contra o pai graças aos incentivos dos editoriais da gazeta que chegou em suas mãos.

O assassino foi abatido no local pelo seu colega de farda e seus comparsas foram presos. Logo depois, uma equipe de busca tentou encontrar irmã Donizete nos túneis, mas ela já havia falecido pela hemorragia. Mas antes de morrer, deixou algo escrito com seu próprio sangue em uma folha de papel que carregou consigo – e que teria se tornado uma página do jornal se tivesse sido impressa. É dito que este papel está guardado no monastério com muitas honras.

Ela e os três desafortunados ajudantes foram enterrados com louvores e o Gazeta de São Cipriano dedicou várias edições em homenagem à irmã Donizette ‘Gazeta’ – sua imagem se tornou o símbolo do periódico. Porém, nunca mais o jornal teve o mesmo charme de antes e acabou sendo descontinuado em 1860, sendo substituído pelo, até hoje publicado, Jornal de São Cipriano.

Quanto à irmã Donizete, é dito que ela ainda se encontra nos túneis. E se alguém precisar de algum conselho para a vida, basta ir lá embaixo (já que o antigo prédio da gazeta foi derrubado) e escrever uma mensagem para ela em um pedaço de papel. Você pode receber uma resposta no dia seguinte, no verso, escrito em vermelho.

O Portal de Tenochtitlán

Nossos hermanos mexicanos tiveram que enfrentar seus próprios problemas com colonizadores durante séculos, até o seu povo originário, os astecas, ser quase completamente dizimado. A capital de seu império era chamada Tenochtitlán e encontrava-se onde hoje é a Cidade do México. Sem me aprofundar demais nos mitos e histórias deles, vamos à parte que interessa à cidade de São Cipriano.

Por volta de 1887, nossa cidade começou a passar por uma reforma em seu saneamento básico, com grandes ‘cloacas’ sendo criadas para escoar o esgoto e levar água potável para as casas. Nesta época, uma companhia de saneamento regional chamada Águas de São Cipriano começou a escavar a terra. E, obviamente, encontraram alguns dos túneis abaixo do bairro da guilda.

Houve discussões sobre usar alguns destes túneis como cloacas, já que alguns acreditavam que eles eram patrimônios históricos e símbolos de luta do povo da cidade durante sua época como colônia. Outros simplesmente discutiam as questões logísticas de que estes túneis não foram direcionados para os locais certos da onde a água deveria escoar.

Por fim, chegaram à conclusão que uma série de túneis menores – onde era necessário um adulto andar agachado para passar – poderiam servir à causa da saúde pública, enquanto os túneis maiores e mais bem preservados se manteriam intactos.

Os trabalhadores começaram a adentrar nestes túneis menores para ver o quão longos eram, até notarem que um deles parava de forma abrupta no que parecia ser uma parede maciça de rocha vulcânica. O que não parecia fazer o menor sentido em existir ali, pois o Brasil não possui vulcões.

O chefe da empresa não entendia muito à respeito da natureza de rochas e minérios e apenas ordenou que a rocha fosse escavada, já que ela seguia na direção correta para o escoamento da água. E foi o que os trabalhadores começaram a fazer… até que um deles desapareceu sem deixar vestígios.

E o mais estranho de tudo é que o trabalho de escavação daquela rocha vulcânica parecia ter retrocedido, como se o mineral tivesse se ‘recuperado’ dos danos causados.

Mais escavações foram feitas e outros dois trabalhadores desapareceram misteriosamente. As famílias entraram em pânico e boatos começaram a se espalhar. Chegou num ponto que o próprio convento de Mártir João teve que intervir para que aquela obra fosse parada. Pelo menos naquele túnel em específico, cuja rocha vulcânica sempre parecia se restaurar dias depois de ser quebrada.

O tempo passou e, em 1893, um dos trabalhadores desaparecidos voltou para casa. E ele contava a mais absurda das histórias!

Segundo ele, enquanto trabalhava na escavação daquele túnel, o homem foi transportado para a Cidade do México. Mais especificamente para Tenochtitlán, a antiga capital dos astecas. Ele teria visto com seus próprios olhos vários momentos históricos, desde a ascensão da cidade até sua destruição dos espanhóis.

Por fim, após testemunhar tudo aquilo, ele teria acordado em choque nas ruas da Cidade do México poucos dias após o seu desaparecimento no Brasil. Foi mantido em um sanatório de doentes mentais por anos até ser liberado e conseguir, através da piedade de algumas pessoas, os meios para voltar ao seu pais.

Desde então, aquela parte específica dos túneis abaixo do bairro da guilda foram selados e nunca mais puderam ser acessados. Mas há quem diga que os antigos mapas que mostram o local ainda podem ser encontrados em algum lugar.

Ibijuru, Terra de Lendas

No post anterior, falamos sobre a Floresta de Ibijuru, localizada na cidade de São Cipriano. Conhecemos sua lenda mais famosa: a do território maldito e inóspito que foi até a chegada do Frei João de São Cipriano.

Mas ainda há muitas outras lendas desta floresta para serem exploradas. E você verá um apanhado delas aqui.

Cabelobo

Esta criatura híbrida, meio homem e meio tamanduá, é razoavelmente conhecida em todo o território nacional, sobretudo no norte. Porém, em São Cipriano, uma destas criaturas parece vagar na mata de Ibijuru há muito tempo.

Os primeiros relatos sobre a existência deste monstro remontam desde a época da fundação da vila. O cabelobo de São Cipriano era visto vagando pela orla da floresta, sempre de olho para o caso dos humanos se aproximarem demais do seu território. Alguns diziam que seu covil se encontrava próximo da nascente do Rio dos Tombos, embora ninguém saiba precisar direito a localização.

Entretanto, a criatura parecia ter um comportamento mais ‘bairrista’, nunca atacando pessoas que moravam na cidade. Mas viajantes que estavam de passagem pela região relataram ter ouvidos sons estranhos nas proximidades da floresta. E os que foram corajosos (ou tolos) o suficiente para entrar na mata até mesmo afirmam que foram atacadas pela cabelobo durante a noite, apresentando feridas de contusão e cortes de garras que não parecem ter sido causados por nenhum outro animal.

Até hoje, grupos que vão acampar na floresta fazem a famosa ‘caça ao cabelobo’, onde as pessoas procuram por vestígios da criatura, como tufos de pelo de tamanduá. O evento é sempre tratado como uma espécie de diversão e, contanto que você não maltrate a natureza, você está seguro.

Luison

O ‘lobisomem guarani’, como é conhecido, também é outra criatura que já foi avistada em várias partes do território nacional, inclusive em Ibijuru.

Trata-se de uma criatura meio lobo, meio humano, mais especificamente com as feições animalescas semelhantes ao nosso lobo-guará. Animais que, devido à alta taxa de preservação do local, são encontrados em abundância na floresta. E, falando nisso, a caça e domesticação deles é proibida por lei – e São Cipriano tem orgulho de ter uma das leis municipais mais duras contra a caça predatória e comércio ilegal de animais silvestres.

Não é incomum pessoas que se aventuraram na floresta afirmarem terem visto vultos de lobos andando sob as duas patas, soltando uivos que parecem perturbadoramente semelhantes à fala humana, e avistamentos de animais anormalmente grandes para os padrões de um lobo-guará. A saber, eles têm o tamanho de um cão médio.

Crânios encontrados no museu natural da cidade se destacam por serem curiosamente maiores que a maioria dos membros desta espécie – do tamanho de um cão de grande porte, na maioria das vezes! Tanto que muitos acreditam que o que exista uma raça distinta destes animais: o Lobo-Guará de Ibijuru.

Porém, o crânio que mais chamou a atenção foi um encontrado no início do século XX e que se destacava por ser muito grande, além de possuir características estranhamente humanoides, como uma caixa craniana maior para abrigar um cérebro. Por muito tempo, este crânio foi a ‘prova’ de que o Luison existia.

Infelizmente, o crânio foi roubado do museu natural em 1922 e nunca mais foi encontrado.

Tabarana de Calcanhar

Já falamos de duas lendas da floresta que são comuns em outras regiões do Brasil. Agora, chegou a vez de falar de uma lenda que é exclusiva daqui.

No Rio dos Tombos há uma infinidade de peixes de água doce, mas um que adora o trecho de correnteza é a Tabarana. Um peixe prateado de cauda avermelhada que, devido ao desmatamento e poluição dos rios, tem se tornando raro no país. Mas em Ibijuru ele ainda é bem abundante.

Alguns pescadores afirmam já terem visto exemplares um tanto diferentes desta espécie de peixe. Alguns com estranhas protuberâncias nas nadadeiras traseiras, semelhantes à proto-pés, indicando uma mutação evolutiva interrompida. Embora raro, encontrar espécies de peixes e répteis com tais características já foi amplamente documentado na ciência. Mas a incidência deste tipo de mutação em Ibijuru parece maior do que o normal. Todos os peixes que foram encontrados com estas modificações eram saudáveis e deliciosos, entretanto.

Entretanto, foi após o infeliz incidente da Expedição Marco Zero em 1888 (uma história interessante que eu prometo contar mais detalhes num próximo post) que as lendas sobre a bizarrice do tabarana começou a ficar famosa. O grupo registrou terem pescado e comido peixes do rio que possuíam as tais protuberâncias no lugar de barbatanas, mas elas eram anormalmente longas – praticamente pernas!

O relato de uma criatura monstruosa, que parecia um peixe andando fora d’água à beira do rio, também instigou pesquisadores. A expedição não conseguiu capturar tal criatura, mas as ilustrações que o artista do grupo fez revelavam um peixe com pernas e pés com calcanhares rotundos e com uma ponta afiada virada para trás. Embora não fosse hostil, assustava pela bizarrice.

Depois desta data, várias outras pessoas relataram terem visto a Tabarana de Calcanhar andar pela floresta.

O Sanatório da Piedade – Parte 2

A história do Sanatório da Piedade começou no post anterior. De local para tratar tuberculosos, logo tornou-se num manicômio de baixa eficiência e depois um depósito de enjeitados sociais. Funcionando como um pequeno campo de concentração na sua era mais negra para, ao completar um século de idade, ser definitivamente fechado, em 1992.

Mas uma construção como aquela não poderia simplesmente ser abandonada, certo? Por isso, em 1998, o local reabriu como o Hospital Municipal Aurélio Zago.

Em termos oficiais, a história do hospital foi curta. Durou de 1998 até 2007, funcionando por menos de dez anos. Inicialmente fazendo uso apenas do prédio mais novo – o São Bernardo – que estava em melhores condições (este servia para abrigar os loucos com familiares que ainda se importavam com eles, de forma a dar uma ‘maquiada’ na verdadeira situação horrenda que se passava por detrás dos muros). Os outros três prédios foram temporariamente fechados e o sobrado onde viviam os funcionários do sanatório se tornou o dormitório dos plantonistas.

Tentativas de revitalizar os outros prédios – como o Santa Terezinha, que chegou a abrigar uma ala de fisioterapia – ocorreram, mas não foram em frente. Era comum haver uma grande rotatividade de profissionais, que relatavam não se sentirem bem trabalhando naquele lugar por muito tempo. Eles diziam que o local era desagradável, sobretudo para aqueles que conheciam a sua triste história.

Houve pelo menos um momento em que a instituição foi de suma importância na cidade. Em 2004, durante a tragédia do Incêndio da Chácara dos Caquis, o Centro Hospitalar do Município de São Cipriano (antiga Santa Casa) ficou lotado de feridos. O prédio Santa Dimpna havia acabado de concluir a reforma e suas salas foram utilizadas, em caráter emergencial, como ala especializada para tratar pacientes queimados.

Diversas pessoas foram atendidas com eficiência no local durante todo o período de funcionamento do hospital. Não houve nenhuma reclamação grave – além das eventuais filas e falta de medicamentos – mas estava claro que uma espécie de nuvem negra pairava sobre aqueles prédios. E isto ficou mais claro quando um caso de combustão espontânea ocorreu dentro do prédio Santa Dimpna e que, ainda por cima, fez vários outros pacientes que testemunharam o evento ficarem traumatizados e implorando, mesmo em estado grave, para saírem dali.

Este foi apenas o primeiro caso que foi amplamente divulgado pela mídia de ‘ocorrência sobrenatural’ no lugar. Mas a verdade é que desde a inauguração do hospital que vários contos assustadores começaram a surgir.

A má fama apenas aumentou e, com o tempo, o hospital passou a ser evitado. Funcionários acabavam sendo dispensados por problemas de saúde, sobretudo psicológicos, ao trabalhar no lugar. Por fim, a prefeitura decidiu abandonar o hospital e concentrar seus insumos na Santa Casa de São Cipriano, que mantinha-se como o hospital público mais prestigiado da cidade.

Agora o local terá seus prédios demolidos e sua área será revitalizada. Será que isto irá enterrar para sempre a má fama do lugar?

Vamos conhecer alguns casos sobrenaturais que ficaram notórios sobre o sanatório e o hospital que veio depois:

O Paciente Fantasma

O primeiro relato aconteceu em uma noite de 1999 quando uma enfermeira ouviu a campainha de um dos quartos ser tocada. Um homem magro, de aparência sofrida, estava em uma maca e pediu para a mulher buscar alguma coisa para apaziguar a dor. Embora os remédios só pudessem ser dados no horário que seguia a lista, a enfermeira se compadeceu do enfermo e decidiu procurar algum analgésico para ele.

Ela foi até a enfermaria, quando se deu conta de que havia se esquecido do número do quarto para poder checar na ficha do paciente se ele tinha alguma alergia a certos tipos de composto. Ela teria visitado praticamente todos os quartos daquele andar (e até de outros andares), mas não encontrou o paciente misterioso em nenhum deles. Embora ela tivesse quase certeza absoluta que o quarto onde ela tinha entrado era justamente um dos que estavam vazios naquela noite.

O mesmo evento do ‘Paciente Fantasma’ se repetiu nos anos seguintes, com médicos e enfermeiros confusos, tendo a certeza que viram um homem de aparência muito sofrida implorar por analgésicos em um dos quartos – mas sem se lembrar qual era o número.

Premonição da Morte

Em 1974 uma adolescente de 16 anos chamada Lúcia Zanluchi foi internada no Sanatório da Piedade sob um quadro de ‘histeria delirante’. Ela alegava ver cenas da sua própria morte todos os dias e havia tentado se suicidar, alegando que preferiria tirar a própria vida do que sofrer a morte dolorosa que ela tinha visto em sua premonição.

 A jovem foi internada pela primeira vez no dia 22 de fevereiro daquele ano, sempre repetindo aos enfermeiros, aos prantos, que sonhou que tinha sido violentada e depois afogada. No dia 27 de fevereiro, ela subitamente se acalmou e não apresentou mais quadro histérico, sendo liberada no dia 2 de março. E, naquela mesma semana, foi divulgado nos jornais que o corpo de uma mulher desconhecida foi encontrado afogado no Rio dos Tombos, com sinais de violência sexual.

A segunda internação ocorreu em outubro do mesmo ano, desta vez com a paciente alegando que seria morta sob tortura pelas mãos de um homem alto, de bigode, e mancha escura no rosto. No final do mês a jovem acalmou-se novamente, porém um clima desagradável se formou na polícia da cidade que, na época, já tinha suspeitas que o Capitão Mainardi (cuja aparência se encaixava na descrição da jovem) estava ligado a grupos de tortura naqueles anos da ditadura. Algo que a polícia da cidade (pelo menos oficialmente) sempre repudiou por completo.

A terceira internação foi definitiva, com Lúcia sendo internada no dia 7 de maio de 1975, mais uma vez alegando que seria morta de uma forma dolorosa e trágica. Ela foi medicada de todas as formas possíveis, mas só se acalmou novamente – e sem motivo aparente – semanas depois. Porém, a família decidiu que ela deveria ficar na instituição por mais tempo.

Seus quadros de histeria iam e voltavam, com semanas da jovem delirando, até enfim se acalmar durante alguns dias. E isto durou até a sua liberação do sanatório, em 1992. Ela faleceu em 2 de dezembro daquele ano, em paz, um dia depois de ter tido ‘a visão mais bela do mundo’, dizendo que teria uma morte tranquila e que anjos iriam busca-la.

Porém, mesmo após o falecimento de Lúcia, muitos médicos, enfermeiros e pacientes ainda a viam nos corredores do hospital, com ela sempre os alertando sobre mortes trágicas que os aguardavam – e que, invariavelmente, aconteciam.

Mas houve casos de pessoas que tentavam evitar a situação relatada por ela e tinham sucesso. Uma médica teria dito que viu a fantasma avisando que ela ‘morreria queimada em uma explosão’. Intrigada, a mulher decidiu checar condições do cotidiano que poderiam levar a uma situação como aquela e descobriu, chocada, que a mangueira do botijão de gás em sua cozinha estava corroída. Após o conserto, a macabra profecia de morrer em uma explosão, felizmente, não aconteceu.

A Criança do Porão

Casos de estupro não foram incomuns dentro das paredes do Sanatório da Piedade, gerando proles. O procedimento comum era o aborto, mas houve pelo menos um caso notório de uma criança que nasceu e foi criada na instituição.

O nome da criança era Moisés, sem sobrenome, nascida no ano de 1981. Um dos psiquiatras (as suspeitas é que o menino fosse filho dele) ordenou que ele fosse cuidado dentro do sanatório, mais especificamente no porão do prédio Santo Agostinho. Tendo como contato com o mundo externo apenas algumas auxiliares e o próprio psiquiatra, a criança cresceu isolada até o dia em que saiu do porão pela primeira vez, em 1986, após alguém esquecer a porta aberta.

Poucos no sanatório sabiam da existência de Moisés e, por isso, quando foi visto por alguns enfermeiros, muitos acreditavam que ele era filho de um dos pacientes internados e que veio para uma visita. Moisés – que tinha dificuldade em se comunicar devido ao pouco contato social que teve a vida toda – foi conduzido até o prédio São Bernardo (onde ficavam os pacientes mais bem tratados) e foi dito a ele para apontar quem era seu pai ou sua mãe. Uma das mulheres o ‘reconheceu’ como filho e disse que passaria o dia com ele.

No dia seguinte o psiquiatra foi visto gritando com os enfermeiros, embora não comentasse o real motivo da sua braveza. Após ouvir a notícia da ‘criança perdida’ no hospital ele, imediatamente, foi até o quarto da paciente que alegou ser mãe dele. Quando chegou no quarto, a mulher disse que a criança já tinha ido embora, entretanto não sabia dizer para onde.

Os relatos dizem que a paciente chegou até a ser torturada para revelar o que tinha feito com a criança, mas ela insistia em dizer que Moisés tinha simplesmente ‘ido embora’. Em uma das sessões de tortura, ela teria morrido por acidente.

A criança nunca mais foi encontrada, mas há relatos que, durante a noite, é possível escutar vozes de criança vindas do porão do prédio Santo Agostinho.

A Romaria dos Mutilados – Parte 2

No post anterior vocês aprenderam o que foi A Romaria dos Mutilados original e o porquê deste costume ainda ser celebrado na cidade de São Cipriano até os dias de hoje, todo dia 1 de novembro. Agora vocês vão conhecer as lendas e mistérios envolvendo este evento.

É dito que, após a tragédia, a romaria que seguia até a antiga vila diminuiu drasticamente, pois todos temiam que a guarda portuguesa atacasse novamente os romeiros. Mesmo assim, pequenos grupos ainda faziam peregrinação até São Cipriano. Levaria décadas até os números voltarem a ser tão altos como antigamente.

Porém, os moradores diziam que toda a vez que uma nova romaria passava pelas ruas, era possível ver mais gente do que o inicialmente contado antes dos peregrinos entrarem na vila. Entre os devotos, sempre havia dez ou doze pessoas desconhecidas, muitas vezes carregando feridas pelo corpo. Entretanto, bastava dar uma olhada para o lado e voltar a focar nestes estranhos indivíduos que eles desapareciam.

Alguns costumavam ficar na cidade até dia 2 de novembro, o dia dos mortos, hospedados em quartos alugados ou gentilmente cedidos pelos moradores. Neste dia, nenhuma romaria andava pela cidade. Porém, quando a noite caia, era sempre possível ouvir o som de uma procissão avançando pela vila e ficando em frente à igreja.

O padre da igreja relatava ouvir orações fervorosas no meio da noite, muitas vezes indo averiguar, mas não notando vivalma por perto. Coroinhas diziam ver luzes de velas e tochas iluminando as ruas escuras, mas bastava tentarem ver o que se passava que as luzes desapareciam.

Logo, todos perceberam que as almas das pessoas que foram mortas durante a Romaria dos Mutilados ainda não conseguiam descansar. A confirmação veio em 1792 quando Frei Paulo Órfão, na época ainda um leigo no Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano, ficou à espera dos espíritos na noite de 1 de novembro e reconheceu os próprios pais entre eles.

Diversas missas em honra aos mortos foram rezadas durante anos à fio para tentar dar um conforto aos pobres fantasmas. A medida tornou-se efetiva em parte, a romaria fantasma diminuiu seus números, mas ainda havia alguns espíritos que continuavam a repetir aquela encenação dramática.

Foi quando o costume da encenação da Romaria dos Mutilados começou – no ano de 1813 – que os espíritos puderam, enfim, descansar. Talvez, por testemunharem pessoas vivas repetindo o seu martírio, as almas tenham enfim conseguido realizar o seu intento. Nunca mais se ouviu falar sobre uma procissão de mortos caminhando por São Cipriano à noite, nem almas desgarradas assustando os romeiros vivos durante a procissão tradicional.

Porém, este não foi o fim dos relatos. Vez ou outra os habitantes da cidade ainda afirmam ouvir orações fervorosas feitas por fantasmas nas ruas, no dia 1 de novembro, sobretudo nas proximidades da igreja e ás vezes até mesmo dentro dela. Alguns afirmam ver pegadas ensanguentadas nas ruas e choro de moribundos nas vielas.

Esta é apenas uma das várias lendas macabras de São Cipriano. Quando for visitar a cidade na primavera, não deixe de conferir a encenação da romaria. É um espetáculo lúgubre, mas muito bonito!

E quem sabe você pode acabar conhecendo um dos fantasmas originais da lenda numa noite escura!

A Maldição do Pajé

No post anterior, nós falamos sobre a razão ‘oficial’ pelo qual os colonos brancos não conseguiram se estabelecer na região da futura cidade de São Cipriano de 1580 em diante. Agora está na hora de falar da lenda sobre a tentativa de criar a primeira vila na região.

Em 1580, durante o massacre da tribo de índios, é dito que o Pajé do grupo teria realizado um último ritual em honra a uma entidade pagã demoníaca que teria amaldiçoado a região. Naquele local, nenhuma comunidade iria prosperar, nem sobreviver.

Quando as primeiras casas começaram a ser construídas, os primeiros problemas já apareceram. Aquela região parecia ter uma umidade fora do normal, tornando o trabalho muito insalubre. Quente como um forno durante o dia e frio como uma geleira durante a noite. Doenças do trato respiratório espalharam-se rapidamente.

O gosto da água do rio que cortava a cidade era relatado pelos colonos como… estranho. Alguns diziam que o motivo era o fato de tantos cadáveres de índios terem sido jogados nas redondezas e que talvez a água mais próximo da fonte estaria pura. Entretanto, alguns diziam que a própria nascente parecia jorra água de má qualidade, algo que não tinha sido notado na época que o local era habitado por índios.

Animais de criação caiam doentes, incapazes de sobreviver ao ambiente hostil, nem ao ataque dos animais selvagens que pareciam enlouquecidos e também doentes. Não havia peixe no rio e as únicas criaturas que pareciam prosperar eram mosquitos e aranhas.

Mesmo assim, a tentativa de se manter o povoado vivo continuava. Padres eram trazidos na esperança de abençoar o local e tirar de lá qualquer presença demoníaca que os índios poderia ter invocado, mas foi tudo em vão.

Uma pequena capela, erguida no marco zero da vila original, pegou fogo após um relâmpago certeiro atingir seu frágil teto de palha após uma forte tempestade. O evento apavorou os moradores, que começaram a abandonar o local – o que insistiram em ficar, morreram doentes ou vítima do ataque de animais.

Quando o local foi abandonado, muitos esperavam que os índios retornassem a habitar aquela região, mas para a surpresa dos colonos nem mesmo os índios queriam voltar para lá. Chamavam a região de Ibijuru – do Tupi: Terra da Tristeza.

Com o passar das décadas, alguns incautos mais corajosos tentavam estabelecer pequenos povoados na região, mas sem sucesso. Ninguém conseguia permanecer no lugar, que parecia ser inóspito até mesmo para animais. cavalos sentiam-se inseguros quando se aproximavam de Ibijuru e estradas foram construídas de modo a contornar o lugar maldito.

Muitas lendas e superstições foram criadas sobre o local: diziam que os fantasmas dos índios massacrados ainda habitavam a floresta, amaldiçoando quem quer que passasse. Avistamentos de criaturas bizarras, uivos e gritos pavorosos vindos do meio da mata, além de odores fétidos que vinham dos fios de água da onde o rio da região desaguava apavoravam as pessoas.

A região só seria redimida no século 18, com a chegada de Frei João de São Cipriano. Uma história que, assim como esta, também tem sua versão ‘oficial’ e sua versão ‘lendária’. E prometo trazer em breve!