
Nem todas as histórias do Bairro da Guilda acontecem na clandestinidade ou por conta de coisas misteriosas e inexplicáveis ocorrendo em seus túneis. Algumas são bem “pé no chão” e ainda são surpreendentes.
Ah, e ainda assim podem ter um pouquinho de elemento fantástico nelas!
Clube Escudo de São Homobono
Considerado o Country Club da cidade, seus membros originais eram os antigos mercadores da guilda. Aos poucos, eles começaram a vender títulos para outras pessoas endinheiradas de São Cipriano, até restringirem o número total de sócios para mil e quinhentos.
O clube mantêm a fachada de sua última reforma, feita em 1885. E seus espaços, que antes estocavam mercadoria, agora são uma quadra de tênis, outra de basquete, outra de vôlei, uma piscina e salas de convivência diversa – inclusive um fumódromo que, milagrosamente, ainda está ativo mesmo com as leis estaduais anti-fumo!
De vez em quando eles alugam seu salão de baile para festas de formatura. Inclusive, se tudo der certo, estarei lá no início do ano de 2013! Eba!
As histórias sobre o clube poderiam preencher uma revista de fofocas de cem páginas. E é sobre algumas das fofocas que surgiram dentro de suas paredes que iremos falar agora.
A Peeira de São Cipriano
No post sobre as Lendas da Floresta de Ibijuru nós falamos sobre o Luison, o lobisomem guarani. Agora, vamos falar da versão urbana dele.
Em quase todas as culturas do mundo existe uma lenda sobre uma criatura meio humana e meio lobo; e o Brasil não é diferente. Aqui ela tem as suas particularidades: dizem que o sétimo filho homem, ou mulher, de uma família seria amaldiçoado com a licantropia, transformando-se em lobisomem todas as noites de lua cheia. Bem, em São Cipriano houve pelo menos dois casos oficiais de famílias que tiveram filhos do mesmo sexo sete vezes de forma ininterrupta.
A família Romanzeira é bastante famosa na cidade. E em 1898 Emílio Romanzeira casou sua sétima filha mulher, Joana, com Otávio Pécora, um comerciante da região. Foi um casamento ‘apressado’, por assim dizer, com a menina saindo da casa dos pais para se casar com apenas 13 anos – algo que hoje não só seria considerado uma temeridade, mas receberia uma denúncia de pedofilia.
Mesmo nesta tenra idade, Joana Pécora deu à luz a uma criança. Porém, seu marido ficou horrorizado quando descobriu que o bebê havia nascido coberto de pelos, como um animal. O horror do novo papai foi tão intenso que dizem que ele teria tentado afogar a criança na bacia de água quente. As parteiras conseguiram controlá-lo e deixaram a mãe e a criança para descansar a sós no quarto.
No dia seguinte, os familiares encontraram a jovem mãe aos prantos, afirmando que lobos invadiram o seu quarto e levaram a criança com eles. De fato, muitos relataram terem visto sinais de arranhões na garota e pegadas de patas de canídeo no assoalho do quarto. Apesar do evento bizarro, Otávio Pécora não pareceu ficar incomodado, afirmando que não tinha interesse em encontrar o paradeiro da criança e que ele pensaria em ter um novo herdeiro depois.
Após o incidente, Joana começou a desenvolver um comportamento cada vez mais estranho. Comunicava-se com as pessoas com poucas palavras, às vezes com monossílabos ou apenas grunhidos. Ela recusava-se a comer carne assada, preferindo comer a carne mal passada e às vezes até crua. Seu temperamento foi ficando cada vez mais arredio, por vezes até violento. Uma noite, ela teria mordido a mão do marido quando este tentou se aproximar para fazerem sexo, deixando uma ferida profunda.
Otávio decidiu internar a esposa no Sanatório da Piedade e casar-se de novo, alegando que a garota era insana e incapaz de seguir com aquele casamento. Mas tendo os Romãzeira grande prestígio na cidade, eles logo foram resgatar a garota… que havia fugido do hospício antes que seu pai tivesse a chance de chegar até ela. As relações entre Otávio e seu ex-sogro ficaram péssimas e o empresário teve que sair da cidade.
Vale dizer que esta história não é a que foi divulgada nos meios oficiais. O que se sabe é que Joana deu à luz à uma criança prematura, que morreu, e que o desgosto a fez enlouquecer. E depois que ela fugiu do sanatório e nunca mais foi vista.
Porém, os que sabem mais detalhes da história que foi contada no clube dos ricaços, chamam-na de A Peeira de São Cipriano – sendo ‘peeira’ o nome para a versão feminina do lobisomem. E que ela foi viver com seu filhote na floresta, junto com outros lobos.
O Unhudo
A lenda sobre o ‘zumbi brasileiro’, que leva o nome de Corpo Seco, é relativamente famosa no sudeste. Dizem que se trata dos cadáveres das pessoas que foram tão ruins, mas tão ruins em vida que nem o diabo as aceitou. Por isso elas perambulam pela terra, na forma de cadáveres ressequidos, dispostos a fazer mais maldades.
O Unhudo de São Cipriano, no entanto, é um pouco diferente. Trata-se de um dono de terras que nunca acreditou na santidade de Mártir João. Ele veio para a região em 1902 a negócios e ficou porque a terra era farta e, para os padrões de cidades do interior, bastante populosa. Tendo dinheiro, logo comprou um título no Clube Escudo de São Homobono para se enturmar com a elite local.
Ele se recusava a ir às missas ou participar das festividades em honra ao fundador da cidade. Costumava ver com escárnio a adoração à São Cipriano, que ele chamava de falso-santo e demônio. Isto o levou a ter grande inimizade com o povo da cidade e um apelido que ele detestava: Unhudo – pois apesar de querer bancar o ‘chique’ ele quase nunca cortava as unhas das mãos e dos pés, deixando-as grossas, sujas e quase na forma de garras.
O tempo passou e o homem acabou adoecendo e morrendo. Seus familiares pediram para velar o corpo, mas nenhum padre da cidade aceitou fazer o serviço devido a décadas de desrespeito que o Unhudo tinha para com o padroeiro da cidade. Não tiveram outra opção a não ser enterrar o corpo sem missa.
Porém, é dito que no dia seguinte ao enterro, os familiares acabaram discutindo à cerca de um pedido do defunto, de ser enterrado com suas abotoaduras e anéis de ouro. O desejo foi concedido… à principio! Mas como a família estava passando por dificuldades financeiras, poucas semanas depois decidiram desenterrar o sujeito e pegar o metal precioso de volta. E, quando fizeram isso, encontraram o corpo fora de lugar e arranhados profundos de unhas na tampa do caixão.
O que poderia ser simplesmente entendido como um triste caso de catalepsia, e posterior morte por sufocamento dentro do caixão, ganhou contornos sobrenaturais quando muitos juravam ter visto o Unhudo caminhando pela cidade, arranhando portas de igrejas e capelas, desesperado para receber uma missa póstuma depois de ter zombado tanto do santo e do mártir da cidade.
O Incansável Feitor Rubião
O período de escravidão no Brasil – e em todo o mundo – não foi nada bonito.
Desde a época da independência, em 1822, já se falava em abolição da escravatura. Muitos apoiaram Dom Pedro I tendo este objetivo em mente. Porém, as décadas foram passando e nada das leis injustas serem mudadas. Em 1833 a Grã Bretanha, aliada de Portugal, começa a colocar pressão para a abolição; e nada. Em 1865 os Estados Unidos aboliram a escravidão em todo o seu território, e nada do Brasil seguir seu exemplo. A cruel marcha servil prosseguia.
A abolição só ocorreu durante o moribundo processo de destruição da monarquia brasileira, quando a Princesa Isabel fez uma última tentativa desesperada de agradar aos investidores externos do país e obter apoio para permanecer no poder, mas a elite do atraso não se agradou. Com um processo de abolição feito aos trancos e barrancos, ainda levou muito tempo para que estas leis realmente funcionassem na prática. De fato, até meados do século XX não era incomum uma família de posses ‘adotar’ crianças negras e fingir que elas tinham os mesmos direitos que os irmãos brancos, mas eram tratados como serviçais. Pásmem! Ainda no ano de 2000 houve o caso de uma brasileira e seu marido americano que mantinham uma escrava trabalhando para eles em sua casa nos Estados Unidos!
Mas um escravocrata que ficou infame na cidade foi o Feitor Rubião.
Por mais cruel que isso soe, escravos eram ‘mercadorias’ caras e precisavam de condições mínimas de tratamento humano para ‘funcionarem’ com total eficiência. Em São Cipriano os fazendeiros eram conhecidos por tratarem bem os seus escravos, muitas vezes comprando alguns que eram maltratados por outros donos de terras para dar a eles uma vida minimamente digna. E cartas de alforria eram muito comuns de serem assinadas e aprovadas pelo povo daqui.

Acervo do Tribunal de Justiça de São Paulo | Foto: Amanda Rossi/BBC Brasil
Mas havia aqueles que não apenas viam a escravidão como algo moral e natural, como abusavam dela para extravasar seu lado mais perverso. Este era o caso do Feitor Rubião Madeira.
Iniciou carreira como capataz, em meados de 1862, incumbido de capturar escravos fugidos e colocá-los na linha. Trabalhava na Fazenda (posteriormente Chácara) dos Caquis e era conhecido pela sua perversidade. Bastava alguém falar “vou chamar o Rubião!” para qualquer escravo desistir de se rebelar. Porém, mesmo com escravos com bom comportamento, o maldito ainda arrumava um jeito de puni-los.
Os maus-tratos eram tantos que o feitor acabou sendo despedido da fazenda. Mas em São Paulo, naquela época, alguém com sua habilidade era muito requisitado. Ganhou bastante dinheiro com recompensas de caça e voltou para São Cipriano em 1880, época em que todos os escravos no município já haviam recebido sua carta de alforria. Porém, como nada na lei vigente o impedia de ter escravos, ele trouxe alguns consigo e comprou um casarão no bairro da guilda.
Era casado e conhecido por abusar da família e mais ainda dos escravos. Teria se metido em mais de uma briga com habitantes da cidade por conta da violência com que ele tratava as pessoas. É dito que um guarda da cidade o teria impedido de matar uma escrava de quinze anos no meio da rua, ao que ele só gritou: “Ela é minha e eu faço o que quiser com ela!”
Desnecessário dizer que ele criou muitas inimizades. O conselho da cidade já planejava fazer alguma coisa à respeito, quando o sujeito morreu em 28 de fevereiro de 1886, o último domingo do mês. Houve a suspeita de que um de seus filhos, um rapaz que tinha ficado cocho pelas surras do próprio pai, o teria matado sufocado em sua cama. Um processo foi aberto, mas o delegado da cidade fez vista-grossa para o caso feliz da vida!
O tempo passou, os escravos foram libertos logo depois e a família Madeira continuou vivendo na cidade. Hoje, o último descendente já foi embora e o casarão permanece fechado e tombado pela prefeitura, com ninguém querendo morar nele por sentir que lá tem ‘energias ruins’.
E falando em energia ruim, é dito que até hoje o fantasma do feitor Rubião ainda vaga pelo cemitério onde foi enterrado, inconformado com a sua morte e querendo assassinar qualquer um que vê pela frente, embora ele não tenha mais este poder.
