Quem é de São Cipriano aponta o bairro de Piedade – ou Freguesia da Piedade – como sendo a periferia do município. O local onde se encontra a população mais pobre de uma cidade com uma distribuição de renda per capita mais homogênea que a média das outras no país.
E embora muitos avanços já tenham sido feitos no local – em termos de mobilidade, segurança e saneamento básico em 100% da região – o bairro ainda parece ser a área mais estigmatizada da cidade. Por quê?
Em parte, porque este local demorou para ser parte da jurisdição de São Cipriano. Entretanto, vamos contar a sua história do começo:
Como já visto na história do Mártir João, ele foi acusado de heresia e queimado na fogueira. Após a ocorrência de (supostos) milagres no mesmo dia de sua morte e da revolta do povo, o Santo Ofício teve que repensar a ordem de desfazer a vila de São Cipriano. E o local que eles escolheram para fazer a sua pequena reunião foi em uma choupana improvisada na região que hoje é a Freguesia da Piedade.
Os relatos dizem que foi uma discussão acalorada, onde alguns membros ainda queriam acatar as ordens da inquisição de desfazer a vila herege. Outros queriam oferecer a ela o perdão total. Por fim, a decisão pela segunda proposta foi escolhida após o inquisidor que ordenou a morte de Frei João suicidar-se enforcado em uma árvore, arrependendo-se de ter matado um homem beato.
Naquele dia, o Santo Ofício ofereceu o perdão à vila. E no local onde o inquisidor suicidou-se, foi erigida a capela de Santo Ambrósio de Sena, o padroeiro do perdão e da reconciliação.
É dito que muitos membros da inquisição acabaram desistindo deste ofício sangrento e decidiram ficar na vila – alguns sob o pretexto de verificar se o local realmente merecia o perdão da santa igreja e vigiá-la pelos anos que se seguiriam. Pelo menos três dos homens ficaram na cidade e estes tiveram família. Um deles foi Gião das Dores e que acabou se tornando uma figura conhecida e respeitada naquela região.
A cisma entre a Freguesia da Piedade e São Cipriano ocorreu por volta de 1840. Uma das relíquias sagradas guardadas no Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano desapareceu. Os dois padres principais da cidade, o da igreja matriz e o da igreja de Ambrósio de Sena, começaram a se acusar mutuamente pelo crime.
Por fim, o monsenhor do convento achou melhor deixar o conflito esfriar e apenas limitou-se a dizer: “a relíquia voltará para seu devido lugar um dia, pelas mãos de um homem bom”. Apesar da atitude neutra diante de um roubo de algo tão valioso, era claro que o monsenhor estava do lado do padre da igreja matriz. Isso gerou uma onda de fofocas e hostilidades entre o restante dos habitantes da cidade e os da Freguesia da Piedade.
Foi nessa época que o lugar praticamente declarou ‘independência’ de São Cipriano. Separada do resto da cidade pelo Sítio Figueira do Sol (hoje, conhecido como o bairro Figueira do Sol), eles acabaram traçando uma linha entre os territórios e se autoproclamaram Vila de Piedade.
O primeiro alcaide da vila foi Carlos das Dores, descendente de um dos inquisidores antigos e que usou o discurso de que, embora a santidade do Mártir João não devesse ser contestada, a cidade de São Cipriano era indigna e impura de um verdadeiro povo santo. E que eles, os habitantes da recém-fundada vila, seriam o verdadeiro povo de Deus merecedor daquela terra.
Durante muitas décadas a cisma entre as duas regiões se manteve. E o povo de Piedade era proibido moralmente de se encontrar com os ímpios de São Cipriano. Mas um leve contato entre as duas paróquias ainda precisava ser mantido por questões eclesiásticas legais.
O fim da vila rebelde começou quando, por volta de 1895, a suposta relíquia foi recuperada e devolvida, comprovando que o antigo padre da igreja de Santo Ambrósio de Sena é que havia sido o ladrão. Houve até boatos que a antiga igreja sob os cuidados do larápio deveria ser demolida em represália, mas por um questão (ironicamente) de piedade, a ação não foi executada. E ela existe até hoje no bairro, assim como seu antigo cemitério.
Antes da chegada do século XX, quando a república já estava instituída no Brasil, todas as cidades precisavam mandar reportes sobre seus territórios e população. Obviamente, São Cipriano precisava decidir se suas terras iriam incluir a vila ‘rebelde’ ou não. O alcaide de Piedade da época, Manoel das Dores, fez uma última tentativa de manter a divisão, mas falhou.
E na virada do século, em 1900, a Vila de Piedade voltou a ser (na verdade, nunca deixou de ser) a Freguesia da Piedade ou, simplesmente, bairro Piedade. Porém, a má fama de ‘rebeldes’ e persona non grata manteve-se e a região sempre foi a menos cuidada pela prefeitura da cidade, sendo considerado um antro de enjeitados.
Felizmente, hoje isso são águas passadas – ou pelo menos é o que dizem oficialmente – e o bairro está, aos poucos, se equiparando com o resto da cidade em qualidade de vida, embora ainda tenha um longo caminho à percorrer.
Mas a história do roubo da relíquia é só mais um dos ‘causos’ desta parte da cidade. Existem vários e eu contarei alguns deles em outros posts.