
Na era medieval, as guildas de mercadores começaram a surgir para restaurar o comércio na Europa após a queda das grandes rotas comerciais que foram destruídas com as constantes guerras e cruzadas que chacoalharam a região entre a antiguidade e a idade média.
Tratava-se de instituições que ensinavam, protegiam, organizavam e defendiam os interesses dos trabalhadores da época, como sapateiros, ferreiros, oleiros, alfaiates, etc. Em uma era onde indústrias ainda não existiam, estes eram os grupos mais coesos e que reuniam a maior quantidade de profissionais que trabalhavam em um tipo específico de ofício. Por este motivo, algumas guildas costumavam ser bem poderosas. Principalmente dentro dos burgos.
No Brasil, devido à sua origem como colônia, o desenvolvimento de qualquer tipo de ofício que não fosse o puro extrativismo para envio de matéria-prima para a capital era visto como subversivo e passível de punição pela coroa portuguesa. Porém, em São Cipriano, havia uma pequena guilda conhecida como Escudo de São Homobono, disfarçada como uma simples congregação religiosa que comungava pelo santo padroeiro dos comerciantes. E esta surgiu em 1801.
A ideia da guilda partiu de Mateus Boa Morte, descendente de uma das famílias quatrocentonas paulistanas que chegou em São Cipriano aos 19 anos, em 1798. Desencantando com os rumos do país, sobretudo com a eterna imobilidade intelectual forçada devido às restrições de Portugal, o rapaz decidiu ir para o então estado de “Goyaz” para tentar construir seu próprio nome – cujo sobrenome original ele já havia abandonado, baseado numa última conversa que teve com seu pai: “Que você, ao menos, tenha uma boa morte!” ele teria lhe dito. No meio do caminho, ele encontrou a cidade de São Cipriano.
Vendo o clima mais permissivo da região, que havia aprendido com anos de prática a evadir-se dos olhares perigosos da coroa portuguesa, ele começou a financiar os comerciantes locais. Aproveitando o contrabando de livros pela universidade secreta do local, ele auxiliou a entrada de antigos tomos que ensinavam sobre os ofícios – que já não eram tão secretos assim, uma vez que a Europa já estava abandonando o esquema de guilda de mercadores.
Escudo de São Homobono
O disfarce de instituição religiosa foi convincente o suficiente e assim os trabalhos da guilda se iniciaram oficialmente em 1801.
Junto com a confecção de alguns poucos produtos de vestuário feitos sob encomenda, pequenas máquinas têxtis começavam a trabalhar nos porões das casas. Estes produtos eram vendidos e transportados de forma secreta para outras cidades, longe dos olhares da coroa portuguesa e seus impostos sob a colônia. Sem falar em grandes caldeiras que começaram a ser construídas para a manufatura de grande quantidade de utensílios de metal – e cuja fumaça era disfarçada por simples queimadas.
Os mascates que permitiam este transporte discreto destes produtos eram os freis do Convento do Mártir João de São Cipriano. Viajando por todo o país pregando a fé cristã, eles eram acompanhados por um mercador – disfarçado como um simples condutor de charrete – que fazia os negócios nas cidades próximas, vendendo produtos de qualidade diferenciada. isso também ajudava a evitar os salteadores de estrada, pois estes pensavam duas vezes antes de atacar um grupo de freis – sobretudo porque acreditavam que eles não carregavam nada de valor.
Várias destas carroças, portando o símbolo de São Homobono, começaram a sair por aí. E caso alguém ligado às autoridades começasse a questionar estas linhas de comércio clandestinas, os freis eram muito bem treinados na lábia para dispensar a maioria dos guardas; em penúltimo caso, ofereciam suborno, em último… bem, vamos falar disso em outro post!
De Guilda para Clube
Quando a coroa portuguesa teve que sair fugida de Portugal, obrigando-se a afrouxar seus duros mandatos sob a liberdade comercial e educacional no Brasil, os comerciantes de São Cipriano não precisaram mais ficar escondidos. E assim as duas primeiras fábricas da cidade, a Companhia Têxtil São Homobono e a Fábrica de Ferro Líquido Romãzeira, puderam ser oficializadas em 1829 e 1831 respectivamente – esta última, propriedade de Mateus Boa Morte e sua esposa, Inês Romãzeira Boa Morte.
Com o tempo, as capitais estaduais começaram a voltar a ganhar o protagonismo financeiro através de incentivos diversos. Mesmo assim, foi tempo suficiente para que a cidade de São Cipriano pudesse garantir um bom dinheiro em caixa para estruturar sua zona urbana e reformar suas igrejas, convento e mosteiro.
No início do século XX, a guilda não tinha mais necessidade de existir e mudou de nome para Clube Escudo de São Homobono, destinado às famílias dos membros originais da guilda. Hoje, o clube é um pouco mais acessível, mas o título de sócio lá ainda é meio caro (a mãe de um colega meu da faculdade me ofereceu o dela por 10 mil reais, oxi!).
Mas até agora não falamos do bairro em si, não é?
O ‘Queijo Suíço’ da Cidade
Pela sua natureza secreta, a guilda não tinha um local fixo; com exceção do antigo prédio do Escudo de São Homobono que era apenas um chamariz.
Cada uma das casas do entorno era um pedaço da guilda, com suas máquinas e mercadorias secretas em seus porões. E para que os donos destas casas pudessem transitar com certa tranquilidade, sobretudo quando membros da guarda real começavam a fazer viagens pelas cidades, vistoriando as coisas, eles construíram sistemas de túneis.
A escavação começou por volta de 1805, sendo o primeiro pedaço um corredor baixo e estreito que unia a casa de Matheus Boa Morte à da família Romãzeira, distante cerca de sessenta metros. A origem do túnel, inicialmente, não foi por motivos comerciais, mas sim porque Inês e Matheus já estavam apaixonados e a família queria que a filha seguisse o caminho do monastério. Porém, percebendo que os túneis poderiam ser úteis para abrigar pessoas e mercadorias – e vendo que não teriam como separar os ‘pombinhos’ – a própria família Romãzeira começou a incentivar a expansão destes túneis para as casas de outros colegas comerciantes.
Aos poucos, a região começou a ganhar vários destes túneis, ao ponto que alguns problemas de infraestrutura começaram. As escavações se encerraram em 1823, mas muitas passagens e salas amplas de estocagem continuaram a ser usadas por um tempo.
Se você mora em São Cipriano, deve saber que, além do fato de comprar ou alugar uma casa nesta área ser MUITO CARO, futuros proprietários precisam de uma permissão especial da prefeitura para fazer reformas, sobretudo se forem escavar o solo. Afinal, até hoje, estes túneis ainda existem (alguns selados) e mexer com eles pode abalar severamente a estrutura não só das casas, mas como de ruas inteiras!
E como não podia deixar de ser, estes túneis possuem histórias fantásticas – algumas horripilantes! Fica para próximos posts.