Ibijuru, a Terra da Tristeza

Poucas matas nativas no coração do sudeste mantiveram-se tão intactas quanto a Floresta Ibijuru, localizada dentro do município de São Cipriano. As lendas e superstições do local desencorajaram fazendeiros e mineradores a explorar a área por séculos.

A história desta região começa com o massacre de uma tribo indígena pelos colonizadores no final do século 16. As tentativas frustradas de se conseguir estabelecer uma comunidade deu-se por causa de surtos de doenças que acometiam todos os que tentavam viver ali. Lendas dizem que o pajé da tribo massacrada tinha lançado uma maldição sobre a terra, condenando todos que tentassem estabelecer morada no local.

Plantações não cresciam e árvores frutíferas não davam frutos. Doenças se espalhavam pela população e também pelos animais. Alguns poucos sobreviviam tempo suficiente para atacarem vítimas incautas e transmitirem suas enfermidades também aos humanos.

Ibijuru e sua fama maldita mantiveram-se por mais de um século, até a chegada de Frei João, em 1708. Ele estabeleceu a Vila de São Cipriano na região, que se tornou próspera rapidamente. Aquilo acabou chamando a atenção das pessoas, que acreditavam que alguma espécie de milagre – ou poderosa bruxaria – teria operado naquele pedaço de floresta.

Como na maioria dos relatos antigos, é difícil ter certeza do que se passou naquela época. Historiadores não descartam a possibilidade de que os primeiro colonos, crentes nas superstições locais, acabaram exagerando os problemas encontrados durante o desbravamento da área em seus relatos, assustando futuras tentativas de assentamento.

Sobre o surto de doenças, alguns afirmam que, após o massacre da tribo de índios, enfermidades teriam se espalhado por causa do descarte inadequado dos cadáveres. A possibilidade dos próprios índios, tendo visto a sua destruição iminente, terem preparado alguma espécie de veneno para poluir a terra e torna-la imprópria para o plantio também não está descartada.

Seja como for, após muito tempo em estado selvagem, um pedaço de Ibijuru se tornou a Vila de São Cipriano. Enfim, um grupo de colonos conseguiu prosperar naquela região de mau agouro, mas este não foi o fim das lendas.

Para aqueles que moravam na orla da floresta, avistamentos estranhos e sons apavorantes continuaram a povoar as conversas rotineiras. Incautos que adentravam no meio da mata voltavam apavorados com as coisas que diziam ter visto – isto quando conseguiam voltar.

Sobre os elementos sobrenaturais da floresta, irei relatar em outro post. Neste aqui, vamos conhecer alguns aspectos de Ibijuru que são bastante naturais.

Tamanho

Com quatro mil hectares de extensão, a floresta de Ibijuru é uma área preservada de mata atlântica, mantendo-se praticamente intacta desde a fundação da cidade. É entrecortada pelo Rio dos Tombos, que nasce na região e desemboca em direção à malha urbana. Seu ponto mais alto é o Pico da Iraúna, com 600 metros de altitude, seguido pela Colina do Urubu, que abrigou durante muitos anos o Sanatório da Piedade e demarca o limite da cidade.

Diversas tentativas de loteamento da área foram feitas, mas sem sucesso. A ocupação irregular chegou a ser um problema no início do século XX, mas nunca chegou a realmente a ameaçar a região. O Parque da Iraúna permite a entrada de visitantes e possui diversas trilhas, embora boa parte da floresta permaneça fechada à visitação.

Iraúna

Também conhecido como ‘graúna’ no nordeste e ‘merlão’ em algumas regiões do sudeste, este pássaro é o símbolo de São Cipriano. Uma grande quantidade deles pode ser encontrada na floresta e até mesmo na cidade, sendo mais comuns que os pombos urbanos.

Embora este espécie de pássaro não seja conhecida entre aquelas que conseguem mimetizar a linguagem humana (como papagaios, araras e corvos) há muitos relatos de iraúnas de São Cipriano que conseguem falar.

Aranha-do-Fogo

Esta espécie de aranha é encontrada praticamente só na floresta de Ibijuru. Como o nome já denuncia, é uma aranha de aparência laranja-avermelhado – um claro sinal da natureza para manter distância! Com as patas abertas, pode chegar a dez centímetros de comprimento.

O veneno desta aranha provoca tonturas, vômitos e calafrios nos primeiros momentos, para depois ser seguido de uma queimação poderosa e desmaios, podendo ser fatal em alguns casos. Como ela praticamente só existe na região, somente a Universidade Pontifícia de São Cipriano possui um laboratório que produz o antídoto.

Entretanto, alguns dizem que um antídoto efetivo contra a picada desta aranha é a cachaça Fogo de Aranha, feita na região há séculos. Trata-se de aguardente curada com uma aranha-de-fogo dentro. Quem já provou, sabe que esta bebida queima da língua ao estômago! Somente os mais fortes – e mais masoquistas – apreciam essa cachaça!

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Leila Carol

Leila Carol é Jornalista, formada pela Faculdade de Comunicação e Letras Emílio Romãzeira – pertencente ao grupo de Faculdades Integradas de São Cipriano.

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