A Romaria dos Mutilados – Parte 2

No post anterior vocês aprenderam o que foi A Romaria dos Mutilados original e o porquê deste costume ainda ser celebrado na cidade de São Cipriano até os dias de hoje, todo dia 1 de novembro. Agora vocês vão conhecer as lendas e mistérios envolvendo este evento.

É dito que, após a tragédia, a romaria que seguia até a antiga vila diminuiu drasticamente, pois todos temiam que a guarda portuguesa atacasse novamente os romeiros. Mesmo assim, pequenos grupos ainda faziam peregrinação até São Cipriano. Levaria décadas até os números voltarem a ser tão altos como antigamente.

Porém, os moradores diziam que toda a vez que uma nova romaria passava pelas ruas, era possível ver mais gente do que o inicialmente contado antes dos peregrinos entrarem na vila. Entre os devotos, sempre havia dez ou doze pessoas desconhecidas, muitas vezes carregando feridas pelo corpo. Entretanto, bastava dar uma olhada para o lado e voltar a focar nestes estranhos indivíduos que eles desapareciam.

Alguns costumavam ficar na cidade até dia 2 de novembro, o dia dos mortos, hospedados em quartos alugados ou gentilmente cedidos pelos moradores. Neste dia, nenhuma romaria andava pela cidade. Porém, quando a noite caia, era sempre possível ouvir o som de uma procissão avançando pela vila e ficando em frente à igreja.

O padre da igreja relatava ouvir orações fervorosas no meio da noite, muitas vezes indo averiguar, mas não notando vivalma por perto. Coroinhas diziam ver luzes de velas e tochas iluminando as ruas escuras, mas bastava tentarem ver o que se passava que as luzes desapareciam.

Logo, todos perceberam que as almas das pessoas que foram mortas durante a Romaria dos Mutilados ainda não conseguiam descansar. A confirmação veio em 1792 quando Frei Paulo Órfão, na época ainda um leigo no Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano, ficou à espera dos espíritos na noite de 1 de novembro e reconheceu os próprios pais entre eles.

Diversas missas em honra aos mortos foram rezadas durante anos à fio para tentar dar um conforto aos pobres fantasmas. A medida tornou-se efetiva em parte, a romaria fantasma diminuiu seus números, mas ainda havia alguns espíritos que continuavam a repetir aquela encenação dramática.

Foi quando o costume da encenação da Romaria dos Mutilados começou – no ano de 1813 – que os espíritos puderam, enfim, descansar. Talvez, por testemunharem pessoas vivas repetindo o seu martírio, as almas tenham enfim conseguido realizar o seu intento. Nunca mais se ouviu falar sobre uma procissão de mortos caminhando por São Cipriano à noite, nem almas desgarradas assustando os romeiros vivos durante a procissão tradicional.

Porém, este não foi o fim dos relatos. Vez ou outra os habitantes da cidade ainda afirmam ouvir orações fervorosas feitas por fantasmas nas ruas, no dia 1 de novembro, sobretudo nas proximidades da igreja e ás vezes até mesmo dentro dela. Alguns afirmam ver pegadas ensanguentadas nas ruas e choro de moribundos nas vielas.

Esta é apenas uma das várias lendas macabras de São Cipriano. Quando for visitar a cidade na primavera, não deixe de conferir a encenação da romaria. É um espetáculo lúgubre, mas muito bonito!

E quem sabe você pode acabar conhecendo um dos fantasmas originais da lenda numa noite escura!

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Leila Carol

Leila Carol é Jornalista, formada pela Faculdade de Comunicação e Letras Emílio Romãzeira – pertencente ao grupo de Faculdades Integradas de São Cipriano.

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