A Romaria dos Mutilados – Parte 1

Quem ai já ouviu a famosa música de Chico Buarque, O que Será, cuja letra fala de algo que não tem conserto, não tem censura, não tem tamanho, não faz sentido, etc. Uma letra poderosa e que, muitos não sabem, um de suas estrofes teve uma pequena inspiração em uma história de São Cipriano.

Muitas cidades do Brasil são destinos dos romeiros (que vem do termo ‘os que vão em direção à Roma’ que é considerada até hoje um destino sagrado para católicos). A mais famosa é a cidade de Aparecida, aonde vários fiéis vão em peregrinação à sua basílica no dia 12 de outubro. Outras cidades que também atraem romeiros são Canindé, Juazeiro do Norte e Santa Cruz dos Milagres. Algumas por serem a terra natal de beatos brasileiros, locais onde supostos milagres teriam ocorrido e outras por serem, simplesmente, um ponto de encontro antigo dos devotos.

Depois de toda a história envolvendo os milagres de Mártir João, era natural que a cidade de São Cipriano tenha se tornado destino de muitas pessoas em busca de auxílio espiritual. Alguns vinham com o propósito de se tornarem moradores, outros queriam apenas estar no local onde um grande milagre teria ocorrido.

A fama se espalhou e, segundo o diário de um padre da época, uma romaria de mil indivíduos teria chegado às portas da igreja de São Cipriano no dia 31 de outubro de 1778 para orar e pedir bênçãos.

Porém, o grande movimento de pessoas não agradou muito algumas pessoas do clero, que ainda viam com desconfiança o culto a São Cipriano e ao Mártir João. Em especial, não gostavam de ver o fluxo de dízimos e oferendas ir para a incipiente vila ao invés dos templos mais famosos das grandes cidades. Para piorar, os relatos que os milagres em São Cipriano “funcionavam melhor” também desmoralizavam os outros pontos de romaria.

Nesta época, pessoas de várias partes do sudeste iam em direção à cidade, em especial muitas pessoas da capitania de Minas Gerais. Nesta época, após vários conflitos como a Guerra dos Emboabas e a Revolta de Filipe dos Santos nas décadas anteriores, o palco estava armado para a Inconfidência Mineira surgir. Como todos aqueles que estudaram um mínimo de história sabem a revolta foi duramente reprimida pela coroa portuguesa em 1789, culminando na morte de Tiradentes.

Quando uma nova romaria foi preparada para ir em direção a São Cipriano, no mesmo ano da derrota dos separatistas, correram boatos de que inconfidentes estariam misturados aos romeiros para seguirem até a capital, Rio de Janeiro, e tomarem o poder. A cavalaria real foi acionada com a missão de prender os supostos revoltosos.

No dia 31 de outubro de 1789, já nas cercanias da vila, os romeiros foram abordados pelos soldados portugueses. Foi ordenado que todos se ajoelhassem enquanto eram revistados. A maioria obedeceu, mas um pequeno grupo de devotos recusou-se, afirmando que estavam apenas seguindo para a vila para pedir graças e agradecer às já alcançadas.  

Estes foram espancados e revistados com mais violência, muitos dele sendo deixados nus no meio da estrada. Ao constatarem que os romeiros não traziam armas, nem qualquer coisa de valor, os soldados foram embora, ordenando que todos voltassem para suas casas.

Alguns recusaram-se e, após a partida dos soldados, retomaram a romaria, encarando o acontecido como uma prova de fé. No dia seguinte, após o aniversário da cidade e do martírio de Frei João, uma pequena procissão de homens e mulheres feridos, com as roupas rasgadas e braços e pernas quebrados, avançaram até a igreja de São Cipriano.

O espetáculo assustou os moradores, assim como os membros da guarda portuguesa que haviam se instalado na vila antes de seguirem seu rumo de volta ao Rio. Contrariados, alguns soldados atacaram ferozmente a procissão, estourando cabeças com tiros de arcabuzes e decepando membros com os sabres afiados. Porém, talvez tomados por uma espécie de transe divino – ou loucura coletiva – a procissão seguiu seu caminho até a igreja para orar.

É dito que pelo menos vinte pessoas conseguiram chegar até a igreja, sangrando e orando em devoção fervorosa. E antes que os soldados terminassem de mata-los, membros da vila foram em defesa dos romeiros. Com o moral baixo, os soldados não tiveram escolha a não ser ir embora. O caso tornou-se tão vexatório que foi riscado dos registros oficiais da guarda portuguesa.

O convento e o mosteiro da vila acolheram os romeiros feridos, cuidando deles o melhor que podiam, apesar de alguns deles terem vindo a óbito poucos dias depois. Os que foram mortos pelos soldados receberam uma missa pública que os homenageou como novos mártires e os corpos foram devolvidos às cidades de origem com dinheiro arrecadado pelos próprios moradores de São Cipriano.

Dos sobreviventes, três ficaram na cidade: José Ribeirinho, Tereza do Amor Divino e Paulo Órfão, cujos pais foram mortos pelos soldados durante a romaria. Os três foram ordenados entre os freis e a freiras de São Cipriano.

Até hoje, na cidade, existe um evento em honra ao trágico evento dos romeiros que é conhecido como A Romaria dos Mutilados. Ocorre todo dia 1 de novembro e é representado por homens, mulheres e crianças caminhando com bastões e com falsas tipoias nos braços e pernas para representar os feridos.

Uma missa é realizada em honra a eles no dia 2 de novembro, Dia de Finados, e um pequeno monumento, que existe até hoje no cemitério da igreja, foi erigido em honra aos caídos. Lá, também estão enterrados os três sobreviventes que se dedicaram à fé após a terrível provação.

Porém a história destes romeiros ainda daria pano para outras histórias, bem mais assustadoras. Mas estas ficam para o próximo post.

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Leila Carol

Leila Carol é Jornalista, formada pela Faculdade de Comunicação e Letras Emílio Romãzeira – pertencente ao grupo de Faculdades Integradas de São Cipriano.

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