Vamos fazer uma pausa na sequencia histórica dos post e fazer um salto para o final do século 19 para podermos encaixar com uma notícia recente.
Ontem, saiu na mídia que o terreno do antigo Hospital Municipal Aurélio Zago havia sido vendido para uma empreiteira para ser demolido e virar um condomínio de apartamentos populares.
Após décadas, a prefeitura finalmente conseguiu se livrar daquele elefante branco. Quem mora em São Cipriano já conhece a história: o local, que antes era um sanatório para tuberculosos, depois se transformou em hospício. Lendas bem macabras cercam seus corredores e, para aqueles que não as conhecem, irei relatar no blog em dois posts. Começando, como sempre, com a apresentação.
Na última década do século 19, a prefeitura da cidade autorizou a construção de um local para tratamento de tuberculosos. A Colina do Urubu foi escolhida por ser o ponto mais alto da cidade, bem arejado e tranquilo, o que muitos acreditavam ser essencial para a melhora do quadro clínico dos tuberculosos, na época.
O sanatório foi concluído em 1892 e, embora recebesse alguns repasses da prefeitura para atender a população carente, também tinha espaço para clientes particulares. Lá, eram levados os tuberculosos para serem tratados da doença – que, na época, não tinha cura. A maioria ia para viver seus últimos anos de vida com um mínimo de tratamento.
A planta inicial tinha três prédios de dois andares, mais o térreo, posicionados a formar um ‘U’, com um grande jardim no meio deles – que era a área onde as visitas vinham ver seus enfermos. Havia um grande terreno ao redor que permitia que os pacientes tomasse ar puro e, caso estivessem em condições, realizar algumas atividades ao ar livre, como jardinagem.
O prédio Santo Agostinho era o que recebia os pacientes pagantes. Eram vinte quartos individuais por andar, além de salas de atendimento bem equipadas no térreo. Os outros dois prédios tinham corredores de acesso separados, o que já indicava que os pacientes colocados ali não desfrutariam dos mesmos luxos. Os prédios se chamavam Santa Terezinha e São José e eram destinados aos pacientes amparados pela prefeitura, o primeiro para as mulheres e o segundo para os homens. Não havia quartos individuais, apenas duas grandes enfermarias coletivas com lotação para sessenta pessoas cada uma.
Médicos atendiam a todos, embora fosse claro que eles eram mais atenciosos com os hóspedes do prédio Santo Agostinho. Alguns freis e freiras da ordem do Mártir João de São Cipriano trabalhavam como voluntários, auxiliando os moribundos em seus momentos finais. Mesmo assim, a mortalidade era bastante alta, com mais de 75% dos pacientes morrendo nos primeiros quatro anos internados no local.
Por esta razão os dois prédios para a malta nunca sofriam de superlotação, o que não foi o caso do prédio Santo Agostinho. Em 1913, todos os quartos estavam ocupados e alguns pacientes tiveram que dividir seu espaço. Embora a regra fosse conservar o decoro de apenas colocar pessoas do mesmo sexo para dividir quartos houve pelo menos um caso de um casal que pediu para morarem juntos – uma vez que sabiam que nenhum dos dois jamais sairia vivo do local, já que a tuberculose não tinha cura.
Com o tempo, sobretudo com os avanços da medicina, não foi mais necessária a existência de sanatórios para abrigar tuberculosos. Logo começou a surgir ‘espaço vago’ e, no ano de 1952, o Sanatório da Piedade passou a aceitar pessoas com distúrbios psiquiátricos. O prédio Santa Terezinha ficou reservado apenas para os poucos tuberculosos pobres que ainda viviam no local e o São José mudou de nome para Santa Dimpna, a padroeira dos loucos.
O andar superior sofreu modificações para abrigar os loucos de classe mais alta com a união de dois quartos, totalizando treze. Mas logo ficou claro que, enquanto o numero de tuberculosos caia, o de loucos crescia. O prédio Santo Agostinho também foi modificado para receber pacientes insanos e, em 1969, o local foi oficialmente transformado em uma instituição psiquiátrica em sua totalidade.
Embora nunca tenha recebido o nome de ‘hospício’, o nome Sanatório da Piedade logo virou sinônimo de asilo de loucos. Foi nesta época que os trabalhos voluntário dos freis e freiras foi dispensado, uma vez que lidar com pessoas insanas exigia um grau de proficiência maior do que simples boa vontade, na visão do diretor da época. E as histórias da instituição médica, que já eram tristes na época dos surtos de tuberculose, ficaram horripilantes.
O quarto prédio foi construído em 1966, de frente ao prédio Santo Agostinho, e recebeu o nome de São Bernardo. É possível notar que era o prédio mais novo pela arquitetura mais moderna e pela presença de dois andares extras. Assim como o prédio supracitado, ele tecnicamente também seria destinado à pacientes com famílias de maior poder aquisitivo, com trinta quartos separados nos três andares superiores, e várias salas de tratamento no térreo e primeiro andar.
Com o tempo, a diferença de classes passou a ficar nebulosa. Todos que eram levados para lá, a não ser que houvesse familiares que visitassem seus parentes com frequência, acabavam abandonados e maltratados. As já famosas terapias de choque eram utilizadas em larga escala. O local tornou-se um reduto de excluídos sociais, muitas vezes levados lá sem nenhuma patologia psiquiátrica comprovada – com recomendações escritas por médicos corruptos.
Maridos que queriam se livrar de esposas – sobretudo numa época em que o divórcio só era permitido no país em caso de conjugue leproso ou insano – mandavam interna-las. Pais que não tinham paciência com filhos rebeldes diziam que estes estavam loucos. Agitadores sociais eram levados para serem dopados. Moradores de rua que eram pegos bêbados eram levados para lá à revelia. Logo, o Sanatório da Piedade tornou-se tudo, menos um local de piedade.
Durante décadas, a construção teve apenas uma longa grade, de dois metros de altura, separando o sanatório do mundo exterior. Mas quando tornou-se uma instituição psiquiátrica, foi recomendada a construção de muros altos. Um quinto prédio foi construído na área ao ar livre, separada também por muro, e destinada aos funcionários que trabalhavam no sanatório – que não queriam mais dividir o espaço comum com os loucos, limitando-se a só encontra-los na hora dos tratamentos.
Não se sabe ao certo quantas pessoas foram internadas no local com diagnóstico de insanidade, mas estima-se que tenham sido mais de dez mil indivíduos. E o recorde de pacientes internados ao mesmo tempo foi registrado em 1981, com novecentas e vinte e duas pessoas apertadas em um local onde deveria caber, no máximo, trezentas.
Relatos de pacientes dormindo ao relento e morrendo congelados à noite eram comuns, além de subnutrição e mortes por doenças que poderiam ser facilmente evitadas com um mínimo de saneamento básico.
No ano de 1992, após completar cem anos de existência, um decreto da justiça mandou fazer uma vistoria completa no sanatório e encontrou um cenário digno de campo de concentração: pessoas só pele e osso, caminhando nuas pelo espaço, sujas, feridas e adoentadas. Os poucos que ainda estavam sãos o suficiente para falar contavam sobre sessões de tortura, estupros e experimentos médicos sádicos.
Um cemitério clandestino havia sido construído nos fundos da instituição, onde vários pacientes foram enterrados como indigentes. Entre os médicos que viviam no local, um deles tinha uma sala repleta de caveiras humanas expostas como troféus. O horror foi tão grande que evitou-se de divulgar os nomes dos envolvidos – tanto vítimas quanto algozes – para poupar as famílias da exposição.
Sobre segredo de justiça, um julgamento foi realizado em 1993 e fala-se que oito pessoas foram condenadas à prisão, duas delas praticamente perpétuas já que a condenação superava 85 anos – um dos condenados teria se suicidado antes de ser transferido para o presídio. Os pacientes foram transferidos para outras clínicas ou voltaram para suas famílias.
Em 1998, a prefeitura resolveu reformar o local e transformá-lo no Hospital Municipal Aurélio Zago. Mas esta parte vamos contar no próximo post.