O Sanatório da Piedade – Parte 1

Vamos fazer uma pausa na sequencia histórica dos post e fazer um salto para o final do século 19 para podermos encaixar com uma notícia recente.

Ontem, saiu na mídia que o terreno do antigo Hospital Municipal Aurélio Zago havia sido vendido para uma empreiteira para ser demolido e virar um condomínio de apartamentos populares.

Após décadas, a prefeitura finalmente conseguiu se livrar daquele elefante branco. Quem mora em São Cipriano já conhece a história: o local, que antes era um sanatório para tuberculosos, depois se transformou em hospício. Lendas bem macabras cercam seus corredores e, para aqueles que não as conhecem, irei relatar no blog em dois posts. Começando, como sempre, com a apresentação.

Na última década do século 19, a prefeitura da cidade autorizou a construção de um local para tratamento de tuberculosos. A Colina do Urubu foi escolhida por ser o ponto mais alto da cidade, bem arejado e tranquilo, o que muitos acreditavam ser essencial para a melhora do quadro clínico dos tuberculosos, na época.

O sanatório foi concluído em 1892 e, embora recebesse alguns repasses da prefeitura para atender a população carente, também tinha espaço para clientes particulares. Lá, eram levados os tuberculosos para serem tratados da doença – que, na época, não tinha cura. A maioria ia para viver seus últimos anos de vida com um mínimo de tratamento.

A planta inicial tinha três prédios de dois andares, mais o térreo, posicionados a formar um ‘U’, com um grande jardim no meio deles – que era a área onde as visitas vinham ver seus enfermos. Havia um grande terreno ao redor que permitia que os pacientes tomasse ar puro e, caso estivessem em condições, realizar algumas atividades ao ar livre, como jardinagem.

O prédio Santo Agostinho era o que recebia os pacientes pagantes. Eram vinte quartos individuais por andar, além de salas de atendimento bem equipadas no térreo. Os outros dois prédios tinham corredores de acesso separados, o que já indicava que os pacientes colocados ali não desfrutariam dos mesmos luxos. Os prédios se chamavam Santa Terezinha e São José e eram destinados aos pacientes amparados pela prefeitura, o primeiro para as mulheres e o segundo para os homens. Não havia quartos individuais, apenas duas grandes enfermarias coletivas com lotação para sessenta pessoas cada uma.

Médicos atendiam a todos, embora fosse claro que eles eram mais atenciosos com os hóspedes do prédio Santo Agostinho. Alguns freis e freiras da ordem do Mártir João de São Cipriano trabalhavam como voluntários, auxiliando os moribundos em seus momentos finais. Mesmo assim, a mortalidade era bastante alta, com mais de 75% dos pacientes morrendo nos primeiros quatro anos internados no local.

Por esta razão os dois prédios para a malta nunca sofriam de superlotação, o que não foi o caso do prédio Santo Agostinho. Em 1913, todos os quartos estavam ocupados e alguns pacientes tiveram que dividir seu espaço. Embora a regra fosse conservar o decoro de apenas colocar pessoas do mesmo sexo para dividir quartos houve pelo menos um caso de um casal que pediu para morarem juntos – uma vez que sabiam que nenhum dos dois jamais sairia vivo do local, já que a tuberculose não tinha cura.

Com o tempo, sobretudo com os avanços da medicina, não foi mais necessária a existência de sanatórios para abrigar tuberculosos. Logo começou a surgir ‘espaço vago’ e, no ano de 1952, o Sanatório da Piedade passou a aceitar pessoas com distúrbios psiquiátricos. O prédio Santa Terezinha ficou reservado apenas para os poucos tuberculosos pobres que ainda viviam no local e o São José mudou de nome para Santa Dimpna, a padroeira dos loucos.

O andar superior sofreu modificações para abrigar os loucos de classe mais alta com a união de dois quartos, totalizando treze. Mas logo ficou claro que, enquanto o numero de tuberculosos caia, o de loucos crescia. O prédio Santo Agostinho também foi modificado para receber pacientes insanos e, em 1969, o local foi oficialmente transformado em uma instituição psiquiátrica em sua totalidade.

Embora nunca tenha recebido o nome de ‘hospício’, o nome Sanatório da Piedade logo virou sinônimo de asilo de loucos. Foi nesta época que os trabalhos voluntário dos freis e freiras foi dispensado, uma vez que lidar com pessoas insanas exigia um grau de proficiência maior do que simples boa vontade, na visão do diretor da época. E as histórias da instituição médica, que já eram tristes na época dos surtos de tuberculose, ficaram horripilantes.

O quarto prédio foi construído em 1966, de frente ao prédio Santo Agostinho, e recebeu o nome de São Bernardo. É possível notar que era o prédio mais novo pela arquitetura mais moderna e pela presença de dois andares extras. Assim como o prédio supracitado, ele tecnicamente também seria destinado à pacientes com famílias de maior poder aquisitivo, com trinta quartos separados nos três andares superiores, e várias salas de tratamento no térreo e primeiro andar.

Com o tempo, a diferença de classes passou a ficar nebulosa. Todos que eram levados para lá, a não ser que houvesse familiares que visitassem seus parentes com frequência, acabavam abandonados e maltratados. As já famosas terapias de choque eram utilizadas em larga escala. O local tornou-se um reduto de excluídos sociais, muitas vezes levados lá sem nenhuma patologia psiquiátrica comprovada – com recomendações escritas por médicos corruptos.

Maridos que queriam se livrar de esposas – sobretudo numa época em que o divórcio só era permitido no país em caso de conjugue leproso ou insano – mandavam interna-las. Pais que não tinham paciência com filhos rebeldes diziam que estes estavam loucos. Agitadores sociais eram levados para serem dopados. Moradores de rua que eram pegos bêbados eram levados para lá à revelia. Logo, o Sanatório da Piedade tornou-se tudo, menos um local de piedade.

Durante décadas, a construção teve apenas uma longa grade, de dois metros de altura, separando o sanatório do mundo exterior. Mas quando tornou-se uma instituição psiquiátrica, foi recomendada a construção de muros altos. Um quinto prédio foi construído na área ao ar livre, separada também por muro, e destinada aos funcionários que trabalhavam no sanatório – que não queriam mais dividir o espaço comum com os loucos, limitando-se a só encontra-los na hora dos tratamentos.

Não se sabe ao certo quantas pessoas foram internadas no local com diagnóstico de insanidade, mas estima-se que tenham sido mais de dez mil indivíduos. E o recorde de pacientes internados ao mesmo tempo foi registrado em 1981, com novecentas e vinte e duas pessoas apertadas em um local onde deveria caber, no máximo, trezentas.

Relatos de pacientes dormindo ao relento e morrendo congelados à noite eram comuns, além de subnutrição e mortes por doenças que poderiam ser facilmente evitadas com um mínimo de saneamento básico.

No ano de 1992, após completar cem anos de existência, um decreto da justiça mandou fazer uma vistoria completa no sanatório e encontrou um cenário digno de campo de concentração: pessoas só pele e osso, caminhando nuas pelo espaço, sujas, feridas e adoentadas. Os poucos que ainda estavam sãos o suficiente para falar contavam sobre sessões de tortura, estupros e experimentos médicos sádicos.

Um cemitério clandestino havia sido construído nos fundos da instituição, onde vários pacientes foram enterrados como indigentes. Entre os médicos que viviam no local, um deles tinha uma sala repleta de caveiras humanas expostas como troféus. O horror foi tão grande que evitou-se de divulgar os nomes dos envolvidos – tanto vítimas quanto algozes – para poupar as famílias da exposição.

Sobre segredo de justiça, um julgamento foi realizado em 1993 e fala-se que oito pessoas foram condenadas à prisão, duas delas praticamente perpétuas já que a condenação superava 85 anos – um dos condenados teria se suicidado antes de ser transferido para o presídio. Os pacientes foram transferidos para outras clínicas ou voltaram para suas famílias.

Em 1998, a prefeitura resolveu reformar o local e transformá-lo no Hospital Municipal Aurélio Zago. Mas esta parte vamos contar no próximo post.

A Romaria dos Mutilados – Parte 2

No post anterior vocês aprenderam o que foi A Romaria dos Mutilados original e o porquê deste costume ainda ser celebrado na cidade de São Cipriano até os dias de hoje, todo dia 1 de novembro. Agora vocês vão conhecer as lendas e mistérios envolvendo este evento.

É dito que, após a tragédia, a romaria que seguia até a antiga vila diminuiu drasticamente, pois todos temiam que a guarda portuguesa atacasse novamente os romeiros. Mesmo assim, pequenos grupos ainda faziam peregrinação até São Cipriano. Levaria décadas até os números voltarem a ser tão altos como antigamente.

Porém, os moradores diziam que toda a vez que uma nova romaria passava pelas ruas, era possível ver mais gente do que o inicialmente contado antes dos peregrinos entrarem na vila. Entre os devotos, sempre havia dez ou doze pessoas desconhecidas, muitas vezes carregando feridas pelo corpo. Entretanto, bastava dar uma olhada para o lado e voltar a focar nestes estranhos indivíduos que eles desapareciam.

Alguns costumavam ficar na cidade até dia 2 de novembro, o dia dos mortos, hospedados em quartos alugados ou gentilmente cedidos pelos moradores. Neste dia, nenhuma romaria andava pela cidade. Porém, quando a noite caia, era sempre possível ouvir o som de uma procissão avançando pela vila e ficando em frente à igreja.

O padre da igreja relatava ouvir orações fervorosas no meio da noite, muitas vezes indo averiguar, mas não notando vivalma por perto. Coroinhas diziam ver luzes de velas e tochas iluminando as ruas escuras, mas bastava tentarem ver o que se passava que as luzes desapareciam.

Logo, todos perceberam que as almas das pessoas que foram mortas durante a Romaria dos Mutilados ainda não conseguiam descansar. A confirmação veio em 1792 quando Frei Paulo Órfão, na época ainda um leigo no Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano, ficou à espera dos espíritos na noite de 1 de novembro e reconheceu os próprios pais entre eles.

Diversas missas em honra aos mortos foram rezadas durante anos à fio para tentar dar um conforto aos pobres fantasmas. A medida tornou-se efetiva em parte, a romaria fantasma diminuiu seus números, mas ainda havia alguns espíritos que continuavam a repetir aquela encenação dramática.

Foi quando o costume da encenação da Romaria dos Mutilados começou – no ano de 1813 – que os espíritos puderam, enfim, descansar. Talvez, por testemunharem pessoas vivas repetindo o seu martírio, as almas tenham enfim conseguido realizar o seu intento. Nunca mais se ouviu falar sobre uma procissão de mortos caminhando por São Cipriano à noite, nem almas desgarradas assustando os romeiros vivos durante a procissão tradicional.

Porém, este não foi o fim dos relatos. Vez ou outra os habitantes da cidade ainda afirmam ouvir orações fervorosas feitas por fantasmas nas ruas, no dia 1 de novembro, sobretudo nas proximidades da igreja e ás vezes até mesmo dentro dela. Alguns afirmam ver pegadas ensanguentadas nas ruas e choro de moribundos nas vielas.

Esta é apenas uma das várias lendas macabras de São Cipriano. Quando for visitar a cidade na primavera, não deixe de conferir a encenação da romaria. É um espetáculo lúgubre, mas muito bonito!

E quem sabe você pode acabar conhecendo um dos fantasmas originais da lenda numa noite escura!

A Romaria dos Mutilados – Parte 1

Quem ai já ouviu a famosa música de Chico Buarque, O que Será, cuja letra fala de algo que não tem conserto, não tem censura, não tem tamanho, não faz sentido, etc. Uma letra poderosa e que, muitos não sabem, um de suas estrofes teve uma pequena inspiração em uma história de São Cipriano.

Muitas cidades do Brasil são destinos dos romeiros (que vem do termo ‘os que vão em direção à Roma’ que é considerada até hoje um destino sagrado para católicos). A mais famosa é a cidade de Aparecida, aonde vários fiéis vão em peregrinação à sua basílica no dia 12 de outubro. Outras cidades que também atraem romeiros são Canindé, Juazeiro do Norte e Santa Cruz dos Milagres. Algumas por serem a terra natal de beatos brasileiros, locais onde supostos milagres teriam ocorrido e outras por serem, simplesmente, um ponto de encontro antigo dos devotos.

Depois de toda a história envolvendo os milagres de Mártir João, era natural que a cidade de São Cipriano tenha se tornado destino de muitas pessoas em busca de auxílio espiritual. Alguns vinham com o propósito de se tornarem moradores, outros queriam apenas estar no local onde um grande milagre teria ocorrido.

A fama se espalhou e, segundo o diário de um padre da época, uma romaria de mil indivíduos teria chegado às portas da igreja de São Cipriano no dia 31 de outubro de 1778 para orar e pedir bênçãos.

Porém, o grande movimento de pessoas não agradou muito algumas pessoas do clero, que ainda viam com desconfiança o culto a São Cipriano e ao Mártir João. Em especial, não gostavam de ver o fluxo de dízimos e oferendas ir para a incipiente vila ao invés dos templos mais famosos das grandes cidades. Para piorar, os relatos que os milagres em São Cipriano “funcionavam melhor” também desmoralizavam os outros pontos de romaria.

Nesta época, pessoas de várias partes do sudeste iam em direção à cidade, em especial muitas pessoas da capitania de Minas Gerais. Nesta época, após vários conflitos como a Guerra dos Emboabas e a Revolta de Filipe dos Santos nas décadas anteriores, o palco estava armado para a Inconfidência Mineira surgir. Como todos aqueles que estudaram um mínimo de história sabem a revolta foi duramente reprimida pela coroa portuguesa em 1789, culminando na morte de Tiradentes.

Quando uma nova romaria foi preparada para ir em direção a São Cipriano, no mesmo ano da derrota dos separatistas, correram boatos de que inconfidentes estariam misturados aos romeiros para seguirem até a capital, Rio de Janeiro, e tomarem o poder. A cavalaria real foi acionada com a missão de prender os supostos revoltosos.

No dia 31 de outubro de 1789, já nas cercanias da vila, os romeiros foram abordados pelos soldados portugueses. Foi ordenado que todos se ajoelhassem enquanto eram revistados. A maioria obedeceu, mas um pequeno grupo de devotos recusou-se, afirmando que estavam apenas seguindo para a vila para pedir graças e agradecer às já alcançadas.  

Estes foram espancados e revistados com mais violência, muitos dele sendo deixados nus no meio da estrada. Ao constatarem que os romeiros não traziam armas, nem qualquer coisa de valor, os soldados foram embora, ordenando que todos voltassem para suas casas.

Alguns recusaram-se e, após a partida dos soldados, retomaram a romaria, encarando o acontecido como uma prova de fé. No dia seguinte, após o aniversário da cidade e do martírio de Frei João, uma pequena procissão de homens e mulheres feridos, com as roupas rasgadas e braços e pernas quebrados, avançaram até a igreja de São Cipriano.

O espetáculo assustou os moradores, assim como os membros da guarda portuguesa que haviam se instalado na vila antes de seguirem seu rumo de volta ao Rio. Contrariados, alguns soldados atacaram ferozmente a procissão, estourando cabeças com tiros de arcabuzes e decepando membros com os sabres afiados. Porém, talvez tomados por uma espécie de transe divino – ou loucura coletiva – a procissão seguiu seu caminho até a igreja para orar.

É dito que pelo menos vinte pessoas conseguiram chegar até a igreja, sangrando e orando em devoção fervorosa. E antes que os soldados terminassem de mata-los, membros da vila foram em defesa dos romeiros. Com o moral baixo, os soldados não tiveram escolha a não ser ir embora. O caso tornou-se tão vexatório que foi riscado dos registros oficiais da guarda portuguesa.

O convento e o mosteiro da vila acolheram os romeiros feridos, cuidando deles o melhor que podiam, apesar de alguns deles terem vindo a óbito poucos dias depois. Os que foram mortos pelos soldados receberam uma missa pública que os homenageou como novos mártires e os corpos foram devolvidos às cidades de origem com dinheiro arrecadado pelos próprios moradores de São Cipriano.

Dos sobreviventes, três ficaram na cidade: José Ribeirinho, Tereza do Amor Divino e Paulo Órfão, cujos pais foram mortos pelos soldados durante a romaria. Os três foram ordenados entre os freis e a freiras de São Cipriano.

Até hoje, na cidade, existe um evento em honra ao trágico evento dos romeiros que é conhecido como A Romaria dos Mutilados. Ocorre todo dia 1 de novembro e é representado por homens, mulheres e crianças caminhando com bastões e com falsas tipoias nos braços e pernas para representar os feridos.

Uma missa é realizada em honra a eles no dia 2 de novembro, Dia de Finados, e um pequeno monumento, que existe até hoje no cemitério da igreja, foi erigido em honra aos caídos. Lá, também estão enterrados os três sobreviventes que se dedicaram à fé após a terrível provação.

Porém a história destes romeiros ainda daria pano para outras histórias, bem mais assustadoras. Mas estas ficam para o próximo post.

Quem foi Mártir João de São Cipriano?

O ano presumível do nascimento de Mártir João de São Cipriano é 1685, ano em que ele foi abandonado, ainda bebê, em um convento franciscano na vila de Nossa Senhora dos Remédios do Rio de Contas, futura cidade de Itacaré, na Bahia.

Criado entre os frades, ele abraçou o hábito e tornou-se, desde cedo, um aprendiz exemplar. Era particularmente estudioso, esforçado e tinha um carisma que o fazia ser caro por todos os que o rodeavam. O Superior do convento relatava que poucos tinham tanto apreço pela leitura quanto o jovem João, tornando-se fluente em português, latim e italiano.

Aos quatorze anos o rapaz tornou-se especialmente obcecado pela história de Roger Bacon, franciscano inglês de grande intelecto e conhecimento da incipiente ciência do século onze. O diário de um dos monges que conviviam com ele dizia que, certa vez, ele teria afirmado: “Se irmão Roger desbravou os Mistérios do mundo material, eu devo desbravar os Mistérios do mundo imaterial!”. Tal alegação teria feito alguns freis começarem a se preocupar com sinais de insubordinação de João.

Em 1704, aos dezenove anos, Frei João teve permissão para sair do convento e fazer sua pregação pela estrada. Aproveitando o recente Tratado de Methuen entre Inglaterra e Portugal, ele teria embarcado em um navio para a Grã Bretanha, disposto a conhecer mais sobre Roger Bacon – apesar do perigo que o país tinha se tornado para católicos.

As pessoas só teriam notícias do Frei quando ele desembarcou na vila de Santos, em fevereiro de 1708. Não se sabe ao certo onde ele andou naqueles últimos quatro anos, mas ele estava de volta ao Brasil com uma missão: expurgar o mal de uma região adoecida dentro do país.

No mês de outubro de 1708, acompanhado por alguns fiéis que o seguiram pelo caminho até o interior da região sudeste, ele chegou em Ibijuru e proclamou que, ali, ele ergueria uma vila em homenagem à São Cipriano, o conhecedor dos Mistérios do Imaterial. A vila foi fundada no dia 31 daquele mesmo mês com a inauguração da capela de São Cipriano.

O local começou a prosperar depressa, à despeito da fama de terra maldita. O Frei tornou-se o alcaide e era responsável por todos os assunto administrativos, juntamente com alguns irmãos leigos. A Vila de São Cipriano começou a ganhar fama súbita, alguns a considerando um lugar santo, outros acreditando que alguma espécie de feitiçaria estranha era realizada ali.

No inverno de 1716 o Santo Ofício – que fazia pequenas incursões na colônia para averiguações – foi chamado ao local após uma denúncia de que o Frei João estava realizando rituais de bruxaria na vila. Há suspeitas que a denúncia tenha vindo de um antigo colega de Frei João do convento de Nossa Senhora dos Remédios do Rio de Contas – alguns meses antes da chegada dos inquisidores o monge teria recebido velhos amigos na capela.

Naquela época, sendo colônia de Portugal, o Brasil não tinha tribunal. E acusações de bruxaria tinham que ser enviadas primeiro para o país colonizador e depois o resultado era enviado por carta para ser executado no lugar do crime. Levaria meses, obviamente. E alguns figurões da região viram nisto a oportunidade perfeita para que um julgamento de verdade ocorresse naquele solo e elevasse a jurisdição no país. Ninguém questionaria a urgência de um ato liderado por homens santos, afinal de contas.

O jovem franciscano foi interrogado, assim como várias pessoas próximas a ele. O Santo Ofício teria ameaçado as pessoas da vila a confessarem suas heresias, ao que Frei João interferiu. Ele teria dito que preferiria receber ele toda a responsabilidade por qualquer displicência que poderia ter ocorrido no vilarejo. Tomando isto como uma quase confissão, o inquisidor teria dado permissão a seus carrascos para torturarem o frei até ele confessar que era um bruxo – algo que ele jamais fez.

Embora relatos de torturas fossem escondidos da população, algumas pessoas diziam que a casa que foi cedida para o Santo Ofício trabalhar tinha manchas de sangue espalhadas no chão e nas paredes do pequeno porão. Um dos carrascos teria confessado anos depois que um dos olhos do frei teriam sido arrancados durante uma sessão de tortura pelo inquisidor chefe, frustrado por não obter confissão nenhuma após semanas de tentativas.

Finalmente, sem ter mais nada com o que se basear, o Santo Ofício teria acusado o frei oficialmente de usar o nome de um falso santo – São Cipriano “o Bruxo”, e não São Cipriano, Bispo de Catargo, que teria sido o verdadeiro santo canonizado pela igreja católica – para erigir uma capela. Diante da recusa do frei em mudar o nome da capela e da vila, ele foi condenado à fogueira por heresia e a vila seria oficialmente debandada após sua execução. A sentença foi assinada no dia 13 de agosto de 1717 (na ocasião, uma sexta-feira).

Como último pedido, o frei teria escolhido o dia do nono aniversário de sua vila, para ser imolado. Os inquisidores acataram o pedido, acreditando que o simbolismo seria providencial para acabar com o moral dos habitantes da vila.

Na manhã nublada do dia 31 de outubro de 1717, Frei João de São Cipriano foi queimado vivo na fogueira aos 32 anos de idade. E, segundo testemunhas, não proferiu um único grito de dor.

Alguns fiéis ainda tiveram o ímpeto de correr na direção do frei e tentar salvá-lo, recebendo surras e ameaças de morte dos guardas que vigiavam a fogueira pela tentativa. Enquanto seu corpo era queimado até os ossos, uma poderosa ventania teria soprado na cidade, carregando cinzas por toda a região e, por pouco, não apagando a imensa fogueira.

Antes do anoitecer, relatos sobre milagres realizados pelas cinzas do frei começaram a surgir por toda a vila. Pessoas haviam se curado de doenças, tiveram ferimentos suturados, membros quebrado que voltavam a se mexer, cegueiras foram remediadas e até animais desenganados voltaram à ter vigor. O caso mais famoso foi do bebê natimorto Lázaro Romãzeira, que teria ressuscitado após uma lufada de vento ter trazido as cinzas do frei para dentro de casa.

No dia seguinte, os habitantes da vila uniram-se e hostilizaram o Santo Ofício, dizendo que prefeririam morrer todos do que abandonar o local que seu santo frei havia fundado. Além da pressão popular, alguns dos inquisidores também teriam acreditado na santidade do frei, arrependendo-se do que tinham feito. Dizem que o chefe inquisidor suicidou-se no dia dois de novembro, pedindo perdão à João e chamando-o de mártir.

Após toda a comoção, o Santo Ofício decidiu voltar atrás na decisão e manter a vila intacta, além de expurgar o nome de Frei João de qualquer culpa herética. Para isto, queimaram todos os registros do caso, escondendo o engano cometido e, possivelmente, o único caso de execução feita na fogueira no Brasil. Porém, a história se manteve viva através do boca-a-boca na região.

Nos dias de hoje, a igreja reconhece o frei como Bem-Aventurado Frei João, mas aqui, na cidade que ele fundou e que carregou no coração até o momento de sua morte, ele é conhecido como Mártir João de São Cipriano.

A Fundação da Vila de São Cipriano

A vila de São Cipriano foi fundada pelo Frei João de São Cipriano, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, em 1708, no dia 31 de outubro. Até esta data, a região – conhecida apenas por Ibijuru – foi evitada por índios, brancos e até por alguns animais, ganhando fama de terra maldita.

A chegada do frade, junto com um pequeno número de fiéis que o seguiam, foi de surpresa. Ele teria ignorado os conselhos de todos de evitar aquela região e começou a montar a primeira capela bem onde teria perecido a vila indígena original. A primeira missa foi realizada na data da fundação da vila, que recebeu o nome de São Cipriano.

Alguns religiosos questionaram o uso do nome de um santo tão controverso como São Cipriano, mas deixaram o frei continuar com a expansão da vila, acreditando que provavelmente seus poucos habitantes cairiam perante as doenças e os perigos em breve. Não foi o que aconteceu.

O assentamento original contava com pouco mais de cinquenta pessoas, mas no primeiro aniversário da vila, em outubro de 1709, já tinha quase duzentas. E em 1710 aumentou para quinhentas, chegando à mil (um número impressionante para a época) no início de 1711. E apesar das augúrias de se construir uma vila do zero, todos os seus habitantes passavam bem.

Histórias supersticiosas começaram a chegar nos vilarejos próximos, dizendo que o frei teria feito acordo com santos, ou mesmo demônios, para permitir que sua vila prosperasse.

Com a Guerra dos Emboabas recém encerrada, e a criação da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, muitos temiam o rápido crescimento da vila poderia originar um foco de resistência dentro da colônia, sobretudo porque Frei João parecia ter se afastado da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos por divergências intelectuais. Alguns também diziam que o motivo da vila crescer tanto era uma mina de ouro que deveria estar sendo explorada na região.

Membros da coroa questionaram os aldeões e o frei de forma assertiva, mas não conseguiram encontrar nada fora do normal. Pelo contrário: tudo parecia seguir de forma próspera e feliz na região. Um verdadeiro exemplo de governança para todos.

A situação manteve-se razoavelmente estável até a chegada do Santo Ofício, em 1716, após uma denúncia anônima de que o frei fazia uso de bruxaria.

Os inquisidores teriam ameaçado o frei de todas as formas possíveis, incluindo episódios de tortura e ameaça aos membros da vila, mas não conseguiram obter dele nenhuma confissão. Por fim, o condenaram por usar o nome de São Cipriano, o Bruxo, (e não São Cipriano, Bispo de Catargo) para fundar a cidade e a igreja matriz do lugar. Também teriam decretado a extinção da vila e a debandada de seus habitantes.

No dia 31 de outubro de 1717, exatos nove anos após a fundação da vila, Frei João foi queimado vivo em uma fogueira e morreu sem proferir nenhum som. Houve grande comoção dos seus seguidores, principalmente no dia seguinte, quando boatos de milagres realizados por Frei João surgiram por toda a parte. Cura de doenças, restauração de aleijados e até uma possível ressurreição. As notícias espalharam-se rapidamente.

Fiéis corriam até a fogueira, tentando pegar punhados de cinzas para guardar de lembrança. Dizem que um crucifixo usado pelo falecido foi encontrado nos restos da fogueira e guardado como uma relíquia pelos membros da igreja.

Por pressão popular, a vila não foi desfeita, como ordenado inicialmente. É dito que uma carta teria sido enviada para o tribunal eclesiástico, em Minas Gerais, exigindo o reconhecimento do erro cometido pelos inquisidores por terem executado um homem santo, mas o processo nunca seguiu em frente.

A Vila de São Cipriano sobreviveu, mas não voltou a ser tão próspera e feliz como era em seus primeiros anos. Frei João acabou sendo conhecido como Mártir João e uma capela foi erguida em sua homenagem bem no local onde ele foi queimado vivo. Posteriormente, uma nova congregação de franciscanos foi criada na cidade, recebendo o nome de Convento dos Freis do Mártir João de São Cipriano e, depois, o Mosteiro das Freiras do Mártir João de São Cipriano.

Pedidos feitos ao Vaticano para reconhecer Mártir João como um santo foram feitos, mas por enquanto a igreja ainda não se manifestou sobre o caso.

A Maldição do Pajé

No post anterior, nós falamos sobre a razão ‘oficial’ pelo qual os colonos brancos não conseguiram se estabelecer na região da futura cidade de São Cipriano de 1580 em diante. Agora está na hora de falar da lenda sobre a tentativa de criar a primeira vila na região.

Em 1580, durante o massacre da tribo de índios, é dito que o Pajé do grupo teria realizado um último ritual em honra a uma entidade pagã demoníaca que teria amaldiçoado a região. Naquele local, nenhuma comunidade iria prosperar, nem sobreviver.

Quando as primeiras casas começaram a ser construídas, os primeiros problemas já apareceram. Aquela região parecia ter uma umidade fora do normal, tornando o trabalho muito insalubre. Quente como um forno durante o dia e frio como uma geleira durante a noite. Doenças do trato respiratório espalharam-se rapidamente.

O gosto da água do rio que cortava a cidade era relatado pelos colonos como… estranho. Alguns diziam que o motivo era o fato de tantos cadáveres de índios terem sido jogados nas redondezas e que talvez a água mais próximo da fonte estaria pura. Entretanto, alguns diziam que a própria nascente parecia jorra água de má qualidade, algo que não tinha sido notado na época que o local era habitado por índios.

Animais de criação caiam doentes, incapazes de sobreviver ao ambiente hostil, nem ao ataque dos animais selvagens que pareciam enlouquecidos e também doentes. Não havia peixe no rio e as únicas criaturas que pareciam prosperar eram mosquitos e aranhas.

Mesmo assim, a tentativa de se manter o povoado vivo continuava. Padres eram trazidos na esperança de abençoar o local e tirar de lá qualquer presença demoníaca que os índios poderia ter invocado, mas foi tudo em vão.

Uma pequena capela, erguida no marco zero da vila original, pegou fogo após um relâmpago certeiro atingir seu frágil teto de palha após uma forte tempestade. O evento apavorou os moradores, que começaram a abandonar o local – o que insistiram em ficar, morreram doentes ou vítima do ataque de animais.

Quando o local foi abandonado, muitos esperavam que os índios retornassem a habitar aquela região, mas para a surpresa dos colonos nem mesmo os índios queriam voltar para lá. Chamavam a região de Ibijuru – do Tupi: Terra da Tristeza.

Com o passar das décadas, alguns incautos mais corajosos tentavam estabelecer pequenos povoados na região, mas sem sucesso. Ninguém conseguia permanecer no lugar, que parecia ser inóspito até mesmo para animais. cavalos sentiam-se inseguros quando se aproximavam de Ibijuru e estradas foram construídas de modo a contornar o lugar maldito.

Muitas lendas e superstições foram criadas sobre o local: diziam que os fantasmas dos índios massacrados ainda habitavam a floresta, amaldiçoando quem quer que passasse. Avistamentos de criaturas bizarras, uivos e gritos pavorosos vindos do meio da mata, além de odores fétidos que vinham dos fios de água da onde o rio da região desaguava apavoravam as pessoas.

A região só seria redimida no século 18, com a chegada de Frei João de São Cipriano. Uma história que, assim como esta, também tem sua versão ‘oficial’ e sua versão ‘lendária’. E prometo trazer em breve!

Um Começo Sangrento

Como na maior parte do Brasil, o início da relação entre os colonos e os índios na região que hoje é a cidade de São Cipriano não foi das melhores.

A conquista da região começou na metade do século 16, com a expulsão das tribos para o início do assentamento dos colonos. Uma aldeia de índios resistiu bravamente aos ataques dos europeus, causando várias baixas do lado dos conquistadores brancos.

Esta tribo, provavelmente composta por tupinambás, foi uma pedra no sapato tão grande que o seu extermínio total foi exigido. No ano de 1580 um batalhão de homens com armas de fogo não poupou ninguém da aldeia. Homens, mulheres, crianças e velhos foram exterminados.

Foi no ano seguinte, com a ‘terra limpa’, que os primeiros assentamentos de colonos começaram a ser feitos. A vila começou a ser montada, mas antes mesmo de ganhar um nome os problemas já começaram: a área, talvez devido aos cadáveres dos índios e animais que não foram devidamente descartados, tornou-se extremamente insalubre, causando muitas doenças em quem vivia ali.

A água do rio mais próximo não tinha um sabor agradável, os mosquitos e outras pragas tropicais começaram a invadir as casas, sem falar nos predadores que pareciam muito mais agressivos naquela região, acometidos por uma espécie de raiva ou outra doença neurológica que ainda transmitiam para os que sobreviviam aos seus ataques.

Ninguém sabia como uma área tão problemática tinha sido habitada por índios anteriormente. Talvez a finada tribo, que habitou aquela região por várias gerações, tenha adquirido certa ‘imunidade’ aos estranhos focos de doença que pareciam assolar aquele pedaço da floresta. Pouco a pouco, a população de colonos que tentava se assentar ali estava sendo aniquilada.

Durante as décadas, as tentativas de se manter um assentamento no local foram todas fracassadas. Por fim, no início do século 17, a região foi abandonada tanto por brancos quanto por índios.

Ela ficaria assim até a chegada do fundador da cidade, Frei João.

Boas vindas à São Cipriano!

Neste blog, irei falar sobre esta cidade tão pitoresca e tão amada por todos os seus habitantes!

São Cipriano é uma cidade do interior do estado de São Paulo. Segundo o censo de 2010, a cidade possui 186.000 habitantes. Ela é conhecida, principalmente, pelo Festival de Inverno de São Cipriano, que já está na sua octagésima edição.

A cidade foi fundada em 1708, no dia 31 de outubro pelo Frei João de São Cipriano, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Mas a história da região é muito mais antiga do que isto.

O mascote oficial da cidade é a Iraúna, embora a aranha-de-fogo, espécie que curiosamente só aparece por aqui, é considerado o seu animal símbolo não-oficial. A parte não urbana do município engloba a floresta de Ibijuru.

São Cipriano possui três faculdades – Escola de Direito Doutor Francisco Cavaleira, Faculdade de Comunicação e Letras Emílio Romãzeira (onde eu estudo atualmente!) e Politécnica Iraúna. Todas juntas formam as Faculdades Integradas de São Cipriano. A cidade também possui a Universidade Pontifícia São Cipriano, considerada, não-oficialmente, a universidade mais antiga do Brasil.

Este blog é, além de um espaço para falar dos ‘causos’ da cidade, também é um treino para a minha monografia do curso de jornalismo.

Qualquer nova história que você saiba sobre a cidade e queira me contar – ou pedir para eu fazer uma pesquisa – será bem-vinda! Basta mandar um e-mail para leilacarol@fainsc.com.br